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umbuumbuzeiro carregado 1“os umbuzeiros… irradiantes em círculo… árvores sagradas do sertão…semelham grandes calotas esféricas. Suas flores alvíssimas são a nota mais feliz do cenário deslumbrante. Desafiando as secas mais duradouras, amparam, alimentam, mitigam a sede do homem do sertão”.
Os Sertões – Euclides da Cunha

Em qualquer cidadezinha do interior a torre da igreja é o ponto mais alto. Do alto da torre se ver tudo. Em Mossoró ela serviu para vigiar a cidade do ataque de Lampião. Do alto também se toca o sino para chamar os fies para as missas, enterros, procissões. Qualquer pessoa do interior sabe distinguir as batidas do sino. Por exemplo, quando é um anjo que morre o sino tem uma pancada diferente da batida para o enterro de um adulto. Mais que isso. O sino funciona também como relógio. Manhã, meio dia e a noite, na hora da Ave Maria.
Afora o sino da matriz, o que muito me toca é uma árvore gigante, sagrada que na no verão fica desfolhada. Fica só os galhos abertos sob o sol, mas sem o pano nas suas hastes.
Ela é uma planta símbolo do sertão que resiste à seca e espera, pacientemente, pelas chuvas, para se vestir de milhares de folhinhas e cachinhos de flores brancas, perfumadas, trazendo um fruto que mata e supre a fome do seu povo.
O sol quente, no pino do meio dia, e as sombras de seus galhos nus refletem-se no solo esturricado, qual esqueleto a assombrar o homem, que pôs um toco de árvore, uma improvisação de cadeira, como se quisesse aí, sentar-se e abrigar-se do calor. Porém cadê sombra? Cadê aquele vento que ele esperava sentir no rosto cheio de traços e seco igual à terra que ele cultiva?
Não é à toa que Euclides da Cunha a chamou de “arvore sagrada do Sertão”.
O mês está a findar-se, o sertanejo cansou de arrancar toco. Quer ver a floração do umbuzeiro, pois as primeiras chuvas estão a prenunciar-se no horizonte, ora limpo de nuvens.
Só o calor escaldante leva-o a acreditar que as chuvas, em breve, chegarão e então, mesmo sem está enfolhada, as flores do umbuzeiro transformar-se-ão no mais suculento fruto, que nasce nessas caatingas, de ar quente, calor sufocante, mas com o solo favorável ao seu plantio.
O sertanejo, paciente, espera pelo “imbu” “de vez”, para chupar e comer, com a casca, só desprezando o caroço, num esgar, que parece uma careta, por ser, às vezes, uma mistura de doce e azedo. Além de chupar ele o usará para fazer doce e umbuzada, a ser tomada no seu jantar, quando o vento soprar. Que virá no primeiro balançar das folhas da noite que se esfria, como as raízes do grande umbuzeiro, árvore sagrada dessa terra que abriga homens, mulheres fortes e perseverantes, símbolos desse sertão que abriga o povo na terra.

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