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forro-bodoFORRÓ — substantivo masculino (Nordeste, popular) – 1. Baile popular, festa dançante: “O forró aqui em casa foi animado, dancei a noite toda; estou com os pés que não agüento.” 2. Local público ou privado onde ocorrem tais festas: “O forró da Tia Chica era ali no fim da rua, demoliram pra construir um posto de gasolina.” 3. Designação dos diversos tipos de música que tiveram origem nesses bailes: “Tem gente aí chamando balada de forró só porque botaram lá pelo meio uma sanfona!.” [De “forrobodó”, festa, confusão (?), ou do inglês “for all”, “para todos” (?)]
Definir essas coisas é sempre meio arriscado, e a tentativa acima vale apenas como sugestão. Vejo que o Dicionário Houaiss, por exemplo, registra os sentidos 1 e 3 mas não o 2, o de forró como a casa onde a festança acontece.
Definir o sentido 3, ou seja, a variedade de músicas a que se pode chamar de forró com unanimidade, é mais complicado, mas pode dar uma bela duma pesquisa. Poderíamos entrevistar compositores, musicólogos, historiadores da música, músicos eruditos, músicos de baile, músicos iletrados, e pedir-lhes que descrevessem os gêneros de música nordestina (baião, arrasta-pé, xamego, rojão, etc.) de acordo com uma série de critérios que prepararíamos: andamento, compasso, perfil melódico, número e ordem de partes, estruturas harmônicas mais típicas, instrumentação, temática nas letras… Cinquenta descrições de “xote” depois, o formato da nuvem já estaria sendo visto com muito mais nitidez.
Quanto à acepção 1, palavras como “baião”, “pagode”, “samba” já foram intercambiáveis e se referiam a qualquer festa popular (festa de rico fica de fora) envolvendo, em proporções variadas, a execução de música instrumental, o canto individual ou coletivo, a dança, o consumo de bebida e muitas vezes de uma refeição coletiva, a confraternização entre amigos, e o propósito de se divertir, não de ganhar dinheiro.
Em A Música Popular no Romance Brasileiro, José Ramos Tinhorão mostra a palavra “pagode”, com este sentido, surgindo em A família Agulha de Luís Guimarães Jr. (1900). Comentando o livro Luizinha de Araripe Jr. (1878), Tinhorão diz: “Curiosamente, essas mesmas cenas ocorriam pela mesma época na área rural do Nordeste, geralmente também por ocasião das festas de noivado e casamento – envolvendo coreografia semelhante às descritas por Galpi, mas não sob o nome de xiba ou fandango, e sim de baião ou baiano, dançado em rodas de terreiro denominadas genericamente de sambas.” Vejam só que salada.
Ao comentar o romance Dona Guidinha do Poço de Oliveira Paiva (escrito em 1891), Tinhorão explica que o baião ali não passa de uma espécie de “samba sertanejo” (e dando como exemplo de verso uma perfeita sextilha de cantadores, em ABCBDB), ele diz ser ele “uma seqüência de diferentes toques e cantorias… comandado pela cadência fundamental dos toques da viola e batidas particulares do baião ou rojão.” Está aí uma ponta de fio numa bela meada.

Artigo de Bráulio Tavares em sua coluna diária no “Jornal da Paraíba” (Campina Grande-PB) 24 de março de 2003. O artigo pode ser lido em: http://jornaldaparaiba.globo.com/col_brau.php

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