O moçambicano Mia Couto, pra mim, é um dos grandes escritores… Um bom ficcionista. Não sei dizer se é um bom poeta… É que eu não tenho muitos critérios para tal julgamento. Mas estou lendo um livro de poesias dele que se chama “Tradutor de Chuvas”, com 66 poemas, e nem preciso dizer que também estou gostando até demais da conta. As poesias ‘carregam’ no lirismo… e eu acho isso fantástico. Mia Couto cria um mundo próprio… É como se fosse uma “agricultura às avessas”… onde ele com “apenas uma semente / planta a terra inteira”, ao mesmo tempo que admite só ter palavras para o “indizível”. Nisso aí ele é craque. Ele fez-se no ato de escrever e por isso faz acontecer os nascimentos reais ou simbólicos, as mães e os filhos, os partos, as casas e os rios, os infinitos e as eternidades… Na verdade, um verdadeiro labirinto de arquétipos. Os poemas que gosto do livro são os mais curtos: “a minha tristeza / não é a do lavrador sem terra. // A minha tristeza / é a do astrônomo cego”… Também tem àqueles narrativos como “O brinde” e “Os que esperam”. Tem também aqueles que materializam sutilmente a passagem do tempo: “O bairro da minha infância” e aqueles que focam com nitidez gestos concretos: “… a moça sentada num degrau, pintando as unhas como quem oculta a morte da sua meninice, corpo dobrado na “delicada intenção do ourives”. Pois bem, quem não ainda não leu sugiro dar uma olhadinha no livro do autor; vocês não vão se arrepender.
A poesia está viva… Não apenas quando ela é lida, dita, recitada… mas também quando é reinventada. O belo poema de Manoel Bandeira, “Vou-me embora prá Pasárgada”, foi revisitado e reescrito pelo paraibano Jessier querino que é um arquiteto de palavras do imaginário nordestino.
“Há poesia em tudo – na terra e no mar, nos lagos e nas margens dos rios. Há-a também na cidade – não o neguemos – facto evidente para mim enquanto aqui estou sentado: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro”
“Ofereço-te ruas estreitas, poentes desesperados, a lua dos subúrbios miseráveis. (…) estou a tentar subornar-te com a incerteza, com o perigo, com a derrota.” Borges
“A novidade lá no Brejo da Cruz é a criançada se alimentar de luz”. Esse verso é da canção “Brejo da Cruz” do velho Chico Buarque. Ele nos remete à ficção científica. Mas é possível comer luz? Olha, é possível plantas se alimentarem de luz… Nós, seres humanos, necessitamos da luz do sol para não ficarmos igual a uma vela branca, etc.
Mas, e a gente come luz? Bem, a criançada come luz quando não tem nada para engolir. Outro dia um sertanejo, numa entrevista, perguntado sobre o que comiam diante da forte seca que assolava sua região, disse: “A gente come vento”. Comer vento é sobreviver. Nessas alturas, se ele conseguir respirar, já fica alimentado. Isso lembra a famosa sextilha de Pinto do Monteiro: “Mas eu sou como lacrau / que do lixo se aproxima / e passa cinco ou seis meses / se alimentando do clima / esperando que a vítima / chegue e ponha o pé em cima!”
A boa nova é que no sertão o vento não é mais alimento para criançada. Hoje, o cenário é outro. Os programas de transferências de renda mudaram a vida dos que vivem no semi-árido. A Bolsa família, a Previdência Social, o Pronaf, o Luz Para Todos, as Cisternas, a Merenda e oTransporte Escolar trouxeram dignidade e mudaram a paisagem do sertão.
No entanto, nas grandes cidades, a criançada continua a se alimentar, mais ainda, de vento. E tanto faz, cidades pequenas como grandes. A criançada se alimenta de crak e vento. São esses novos agregados, criança e adolescentes, que passam a viver nos espaços urbanos, em ruas e vielas das cidades brasileiras, agravando assim o grave problema social. Dessa vez, não mais da fome, mas de saúde pública.
Encostei-me a ti, sabendo que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar, quando caí.
Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
O universo do blues e o da cantoria nordestina têm vasos comunicantes por onde deságua a poesia nos versos básicos…. Além, claro, do parentesco histórico e social. Na nossa cantoria a estrofe principal é a sextilha, e no blues tradicional, norte-americano, a estrutura é composta de doze compassos.
A nossa sextilha tem influencia Ibérica. Aliás, tudo ou quase tudo dessas bandas de cá, faz parte da cultura popular nordestina. Na verdade, a nossa sextilha é sertaneja mesma, nasceu no cariri, na caatinga, no pajeú das flores, nos leitos dos rios… Enfim, nasceu em uma região onde a presença negra é muito pouca.
Mas para não ficar nesse trololó, os vídeos abaixo mostram: Robert Johnson cantando Kind-hearted Woman; em seguida, um blues matuto cantado pelo mineiro Téo Azevedo, chamada de “Balada de Robert Johnson”. A canção é sobre a vida do cantor norte-americando, Robert Johnson, criado em um mundo que lembra o Brasil. O cantador era negro, neto de escravos, apanhador de algodão, e nunca foi à escola. E o último, uma sextilha desfiada por Ivanildo Villa Nova
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Robert Leroy Johnson (8 de Maio, 1911 – 16 de Agosto, 1938) foi um cantor, guitarristaNorte-americano de Blues. Johnson é um dos músicos mais influentes do Mississippi Delta Blues e é uma importante referência para a padronização do consagrado formato de 12 compassos para o Blues. Influenciou grandes artistas durante anos como Muddy Waters, Led Zeppelin, Bob Dylan, The Rolling Stones, Johnny Winter, Jeff Beck, e Eric Clapton, que considerava Johnson “o mais importante cantor de blues que já viveu”. Por suas inovações, músicas e habilidade com a guitarra ficou em quinto lugar no ranking dos 100 melhores guitarristas de todos os tempos da revista Rolling Stone // Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
A música “As Rosas não falam”, do Cartola, é uma preciosidade do nosso cancioneiro… Poesia pixototinha, delicada, refinada… Os versos narram a situação de uma pessoa encalhada entre o abandono e esperança. Vamos lá!
Estou revendo algumas coisas do português, e lendo algumas poesias para o alimento da alma…folheando páginas de um velho livro e imaginando coisas… Pois bem, lendo o Neruda me veio à cabeça: será que ele não estava com uma dor de cotovelo quando escreveu: “posso escrever os versos mais tristes da noite…”? E Vinicius não estava apaixonado quando disse: “De tudo ao meu amor serei atento / antes , e com tal zelo, e sempre, e tanto …”. Isso é tão forte que a gente imagina ser uma dor… Ou, uma espontaneidade vinda da alma do cara. Para o poeta não é preciso ficar, estar apaixonado para escrever sobre o amor. Dizem até que quando o sentimento é verdadeiro a paixão não ajuda muito, não, porque o sujeito fica pensando mais no beijo, na pele… do que nas palavras para darem sentido ao verso. Prefiro acreditar que eles sentem um misturado de coisas do coração: dor, paixão, saudades, lembranças… Isso é o que dar o tempero da alma para o verso sair da cabeça.
Fechei os olhos para não te ver
e a minha boca para não dizer…
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei,
e da minha boca fechada nasceram sussurros
e palavras mudas que te dediquei…
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Anarfabeto de pai e mãe – e parteira! – e sai do Sertão pra Capital, pra assisti um fíume istrangeêro legendado! Quando ele volta pro Sertão, pois ele nun conta o filme todinho?
Ma rapai… Eu fui lá na capitá, rapai. Eu assisti um filme autamente internacioná! Pense num filme internaciná? E tem uma coisa: um filme mafioso! Um filme mafioso! Ói, tinha dois Atista! Tinha um Atista qui sufria e o Atista qui sauvava!
Meu cumpade, o Atista Qui Sufria: pense num cabra corajoso! Rapai, o caba nun tinha medo de nada não, rapai! Rapaiz, o bandido, o bandido, pirigoso que só buchada azeda, invocado qui só um fiscal de gafieira, séro qui só um porco mijano, tinha um dedo da grussura de um cabo de foimão.
Amarraro o Atista cum imbira. E tem uma coisa: imbira dos Istado Zunido, nun tem quem se solte não, rapai! Amarraro o Atista cum imbira, butaro o caba sentado, à força, numa cadeira. Aí, chegou o Bandido. Butou o dedo na cara do Atista, e disse:
- Nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei o que lá!
Tá pensano que o Atista teve medo, rapai? O Atista, amarrado cum imbira, rapai, teve que uvi tudinho! Mai, muito do tranquili, olhô pra cara do Bandido e disse:
- Nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá, o quê, mermão?…
Mai rapaiz, esse bandido inchô feito um cururu no sal, nun sabe? Isfregô o dedo na cara dele assim… e disse:
- Nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá, seu fila da puta!…
E tu tais pensano que o Atista teve medo? Ô xent!… Amarrado cum imbira, do jeito qui tava, ficô muito do tranquili, olhô assim pu bandido e disse:
- Nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá, um carái!…
Mai meu cumpade, esse bandido pegô um á!… Pense numa pegada de á!… Ma rapai, foi uma pegada de á tão muidida do pôico! Aí, puxô uma chibata feita de virola de pineu de caminhão, nun sabe? Mais cumprida do que uma língua de manicure, de-lhe uma chibatada tão aparentada a um coice de besta parida, qui ficou escrito assim, da taba dos quêxo pa o porta-urelha do individo: F I R E S T O N E!…
Eu sei qui nessa hora, no mêi dos bandido, tinha um, qui era do time do Atista, rapai. Do time da gente, nun sabe? E ele tava camuflado, feito rapariga de pastô. Nun tinha quem discunfiasse, rapaiz. Camuflado lá pur dênto! E ele tinha um relóge puxado pá telefone. Aí, ele foi pum pé de parede, cum o relóge dele, aí, passô o bizu pra Puliça qui tava lá imbaxo. Ele pegô o relóge e disse:
- Nun seio que lá, nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá…
Conto tudo à Puliça! A Puliça lá imbaxo, nos carro, uvino tudinho pelo rádio! E a puliça dos Istado Zunido nun se veste de puliça não! Se veste de adevogado! Aí, a puliça, dento dos carro, só feiz pegá o rádio e chamá os carro tudin dos Istado Zunido, rapai!
– Acunha, acunha, acunha, acunha!… E todos os carro! Acunha qui o negóço é séro!… Acunha, acunha, acunha…
Ai, os carro acunharo!… E os carro acunharo, acunharo… Ói, era mais carro em cima do préidio, de que romêro in cima de Pade Ciço!
O préidio, rapai, era um préidio grande! Tinha… uns dois ou três andá! Ô era… um Colégio de Frêra, ô era uma Prefeitura. Eu sei que nun tinha quem entrasse. Um préidio todo de vrido, infeitado feito pintiadêra de rapariga, nun sabe? Aí, a puliça: tome corda, tome corda, tome corda, tome corda… Quando a gente pensava qui era a puliça qui ia subi pu fora do préidio, pa salvar o Atista, aí veio o momento mais arripiadô do filme, rapai!
Foi quando chegô o Atista Principau, o Atista Salvadô!… E ele vei nun avião daquele… daquele avião qui tem uma penêra incima, nun sabe? Aí, o avião vei… E o avião nun vuava não, era parado! O avião ficô parado incima da Prefeitura!
Pela capota de vrido, a gente já via o Atista: o Atista forte, cum uns peitão, dois cinturão de bala, uma ispingarda da grussura de um cano de isgôto, rapai. Aí, o Atista ficô assim na porta do avião. Ó o nome do Atista: Arnô Saginégui!… Agora, nun é desses Arnô Saginégui do Sertão, qui dá no cu de todo mundo não! É Arnô Saginégui importado! Ô é da Chequilováquia, ô é da Bolívia, tá intendeno?
Eu sei qui o Arnô Saginégui ficô na porta do avião, aí o chofé do avião olhô pra ele e disse:
- Acunhe!… Pode pulá!
Aí, ele pulô lá de cima! Pulô lá de cima, bateu no telhado, furô a laje, bateu memo no lugá aonde o Atista tava preso, cum os bandido. Pegô os bandido tudo disprivinido, cumeno cuscuz cum leite, rapaiz!
Eu sei qui nessa hora, o Atista pegô a ispingarda, disse:
- Nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá, nun sei que lá….
Ói, ele matô tudinho!… Aí apariceu mai bandido. Vixe!… E foi briga de sê midida a metro! Ele deu um tabefe no porta-urelha de um caba lá chamado Mané Capado, qui ele bobuletou uns dois palmo e caiu no chão, feito uma jaca mole.
Aí teve um bandido, rapaiz, que omilhô o Atista, com uma dedada aonde as costa muda de nome. Meu cumpade, êsse home, ofendido na região glútia, virô uma fera! E, entre a rapidez da dedada e imediatidade do êpa, deu-lhe um berro nas oiça do sujeito, qui iscurregô na froxura e caiu sentado!
Nessa hora, meu cumpade, o Atista partiu pra cima dele, com o gênio de cento e cinqüenta siri dento duma lata de querosene, deu-lhe um supapo no serrote dos dente, que choveu canino, molar e incisivo por três dia no Sítio Boca Funda!
Ai, nessa hora, meu cumpade, o Bandido Principal saiu nun derrapo de velocidade! Aí, o Atista deu-lhe um chuvaréu de bala, meu cumpade, qui a gente teve que se abaixar dentro do cinema! Aquelas letrinha qui passa lá no filme… Ele derrubô umas cento e quarenta! E eu ainda peguei umas quatro. Tá aqui, pra você vê!…
Por desinformação -ou má-fé-, Ferreira Gullar atribuiu a mim, em sua entrevista (Ilustrada, ontem), “querer impedir a exibição de filme americano na TV a cabo”. Nunca afirmei isso.
O stalinista adormecido quer censurar minha opinião sobre o lixo cultural a que somos submetidos na TV, que nada tem a ver com o cinema americano -aliás, o melhor de todos.
Sua entrevista apenas revela o melancólico caminho de alguns comunistas arrependidos. Perdido no tempo, Gullar quer negar a diferença esquerda/direita. Nada mais de direita do que isso.
De qualquer maneira, parabéns ao poeta pelo Prêmio Camões.
MARCO AURÉLIO GARCIA, assessor especial da Presidência (Brasília, DF)
Comentário:
Dos anos 90 prá cá o poeta Ferreira Gullar tem andado meio destemperado.. Nos anos 90, período de desregulamentação da economia, da inserção submissa do Brasil na globalização feita pelo FHC, o poeta maranhense ficou calado… Em alguns momentos aplaudia.. De 2003 prá cá ele virou sua metralhadora stalinista juntamente com o Roberto Freire para toda e qualquer política social formulada e implementada no governo atual. Como político ele perdeu o bonde dos novos tempos; se agarrou na direita e fez morada lá. Eu, que nos tempos de vanguarda ele chamava de direita… Fiquei aqui mesmo, no centro, mas para esquerda…. E ele passou por mim e foi com tudo prás bandas de lá.. Estou aqui, a chamá-lo prá recuar um pouquinho…. Caro Ferreira, voce passou demais da linha, homem, volte um pouquinho mais em direção ao centro.