Elogio ao boteco, por Leonardo Boff

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Leonardo Boff

Em razão do meu “ciganismo intelectual” falando em muitos lugares e ambientes sobre um sem-número de temas que vão da espiritualidade à responsabilidade socioambiental, e até sobre a possibilidade do fim de nossa espécie, os organizadores, por deferência, costumam me convidar para um bom restaurante da cidade. Lógico, guardo a boa tradição franciscana e celebro os pratos com comentários laudatórios. Mas me sobra sempre pequeno amargor na boca, impedindo que o comer seja uma celebração. Lembro que a maioria das pessoas amigas não podem desfrutar destas comidas e especialmente os milhões e milhões de famintos do mundo. Parece-me que lhes estou roubando a comida da boca. Como celebrar a generosidade dos amigos e da Mãe Terra se, nas palavras de Gandhi, “a fome é um insulto e a forma de violência mais assassina que existe”?

É neste contexto que me vêm à mente como consolo os botecos. Gosto de frequentá-los, pois aí posso comer sem má consciência. Eles se encontram em todo mundo, também nas comunidades pobres nas quais, por anos, trabalhei. Aí se vive uma real democracia: o boteco, ou o pé-sujo (o boteco de pessoas com menos poder aquisitivo), acolhe todo mundo. Pode-se encontrar lá tomando seu chope um professor universitário ao lado de um peão da construção civil, um ator de teatro na mesa com um malandro, até com um bêbado tomando seu traguinho. É só chegar, ir sentando e logo gritar: “Me traga um chope estupidamente gelado”.

O boteco é mais que seu visual, com azulejos de cores fortes, com o santo protetor na parede, geralmente um Santo Antônio com o Menino Jesus, o símbolo do time de estimação e as propagandas coloridas de bebidas. O boteco é um estado de espírito, o lugar de encontro com os amigos e os vizinhos, da conversa fiada, da discussão sobre o último jogo de futebol, dos comentários da novela preferida, da crítica aos políticos e dos palavrões bem merecidos contra os corruptos. Todos logo se enturmam num espírito comunitário em estado nascente. Aqui ninguém é rico ou pobre. É simplesmente gente que se expressa como gente, usando a gíria popular. Há muito humor, piadas e bravatas. Às vezes, como em Minas, se improvisa até uma cantoria que alguém acompanha ao violão.

Ninguém repara nas condições gerais do balcão ou das mesinhas. O importante é que o copo esteja bem lavado e sem gordura, senão estraga o colarinho cremoso do chope que deve ter uns três dedos. Ninguém se incomoda com o chão e o estado do banheiro. Os nomes dos botecos são os mais diversos, dependendo da região do país. Pode ser a Adega da Velha, o Bar do Sacha, o boteco do Seo Gomes, o Bar do Giba, o Botequim do Joia, o Pavão Azul, a Confraria do Bode Cheiroso, a Casa Cheia e outros. Belo Horizonte é a cidade que mais botecos possui, realizando até, cada ano, um concurso da melhor comida de boteco.

Os pratos também são variados, geralmente, elaborados a partir de receitas caseiras e regionais: a carne de sol do Nordeste, a carne de porco e o tutu de Minas. Os nomes são ingeniosos: “mexidoido chapado”, “porconóbis de sabugosa”, “costela de Adão” (costelinha de porco com mandioca), “torresminho de barriga”. Há um prato que aprecio sobremaneira, oferecido no Mercado Central de Belo Horizonte e que foi premiado num dos concursos: “bife de fígado acebolado com jiló”. Se depender de mim, este prato deverá constar no menu do banquete do Reino dos Céus que o Pai celeste vai oferecer aos bem-aventurados.

Se bem repararmos, o boteco desempenha uma função cidadã: dá aos frequentadores, especialmente aos mais assíduos, o sentimento de pertença à cidade ou ao bairro. Não havendo outros lugares de entretenimento e de lazer, permite que as pessoas se encontrem, esqueçam seu status social e vivam uma igualdade, geralmente, negada no cotidiano.

Para mim, o boteco é uma metáfora da comensalidade sonhada por Jesus, lugar onde todos podem sentar à mesa e celebrar o convívio fraterno e fazer do comer uma comunhão. Para mim, também, é o lugar onde posso comer sem má consciência. Dedico este texto ao cartunista e amigo Jaguar, que aprecia botecos.

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A Chuva Pasmada e o Mar Me Quer – Mia Couto

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O rio  nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. (Mia Couto. A Chuva Pasmada).

Já era pra ter plantado aqui o que entrou no meu juízo depois da leitura de dois livros do grande Mia Couto. Nem carece falar muito dele, pois já falei desse moçambicano umas poucas de vezes aqui no roçado. Mas é que tem um deles, “A Chuva Pasmada”, que li de forma muito aperreada e engraçada. Quase todos os dias eu ia à livraria Cortez, aqui pertinho, mais ou menos umas 100 braças aqui de casa, ler o danado do livro. Viciou-me, visse!!. A leitura + o café expresso.

Em Chuva Pasmada quem narra o romance é um menininho que entrecruza com os diálogos entre os personagens. São 17 capítulos onde um avô e um menino protagonizam a história. E ainda, o pai, a mãe e uma tia solteira. Os pais consideram o ‘meninin’ uma criança espantada, pasmada: lerdo no fazer e custoso (demorado) no pensar. E aí uma ‘comparaçãozinha’ arretada: a chuva que tardava a vir e era reclamada por todo mundo, era tão ‘pasmadinha’, lerda, como o menino.

Mas por qual razão a chuva não caia naquele pedaço africano? Por que o rio estava ficando seco? Não seria por conta da fabrica que soltava fumaça? Essas questões não podiam ser respondidas dentro de um raciocínio lógico, por isso será necessário recorrer às lendas e aos mitos. É no momento que ocorre ao avô contar a história sobre o rio (a lenda de Ntoweni). Esta lenda discorre acerca do nascimento do rio que banha aquela terra… Aí o menino inicia as observações sobre o avô. O avô é ‘mermin’ o rio: “o rio emagrecera mais do que o avô, os terrenos encarquilharam, o milho amarelecia” (p.14).

Por fim, na última parte, o avô pega um barquinho e sai deslizando na água que ainda resta do rio. O menino vê o barquinho se desmanchando no horizonte, diluindo-se no azul da correnteza e dentro dele está o avô que parte para não mais voltar.

Já o outro, “Mar Me Quer”, foi um presente que ganhei de uma amiga. Esse li com mais tempo… Claro, quando dava… Ora no banheiro, ora dentro do carro, ora na rede… Pra onde ia levava o “mar me quer” comigo. E por isso não me demorei muito na leitura.

Do que ficou no meu juízo das leituras dos livros é que somos filhos da água e só nos tornaremos terra, poeira, pó, quando secarmos, feito um torrão tal qual um açude esturricado cravado no sertão. Resta-nos não nos acabar de sequidão, de deixarmos minguar, antes que o “fio do tempo nos dite a morte”.

São estórias paridas do misto de calor e frio, do pouco definido, das estranhezas, bem fincadas no lugar e nas personagens friccionadas, como são todos os escritos do moçambicano.

Fico por aqui… e noto que há traços do Guimarães Rosa na obra do Mia Couto, por isso a leitura é interessantíssima….. Podem conferir!

O palhaço, (Dir. Seton Melo)

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Para dentro do Brasil – (Da Carta Capital)

“Eu vou ao Sul do Brasil e me sinto num lugar relativamente estrangeiro. Vou a Salvador, me sinto num lugar bastante estrangeiro. Porque no Sul do Brasil parece que fui pra Europa; na Bahia, parece que fui pra África. Mas quando eu vou pra Minas eu sinto que eu fui pra dentro do Brasil”.

‘Como o ventilador, tudo no filme parece simbólico: a estrada, o pó, os canaviais, o retrovisor, o cansaço, o calor’

A frase, atribuída à atriz Fernanda Montenegro, é citada por Caetano Veloso em uma entrevista sobre a música “A Terceira Margem do Rio”, composta em parceira com o mineiro Milton Nascimento e baseada no conto de mesmo nome do também mineiro João Guimarães Rosa.

Pois é para dentro do Brasil que envereda a trupe de “O Palhaço”, filme dirigido e protagonizado por Selton Mello. No longa, o ator-diretor – que nasceu em Passos (em Minas) e cresceu e se notabilizou em São Paulo – interpreta Benjamin, palhaço que, a certa altura da vida (e da excursão) sente que é hora de parar, tomar outro caminho, respirar. Não por acaso, há uma fixação que acompanha o personagem ao longo do filme: a falta que lhe faz o ventilador.

Como o ventilador, tudo no filme parece simbólico: a estrada, o pó, os canaviais que margeiam o caminho, o cansaço, o calor, a ausência de identidade, a cachaça, as cores, a tenda, a música encomendada, as pequenas transgressões, a frágil ideia do coletivo, a divisão de tarefas, a dança da mulher-coragem, a atriz-mirim, o terreno onde se ergue o palco, o nome do circo (Esperança), a vida nômade de seus personagens…tudo tão Brasil.

O palhaço Benjamin, personagem de Senton Mello no filme que ele mesmo dirige

A referência à terra natal do ator (Passos, a cidade a ser atingida) parece lançá-lo a um ponto distante, de descanso; longe da turbulência dos palcos que o consagraram. De Lourenço, o cínico personagem de Selton Mello em “O Cheiro do Ralo” – épico sobre a relação homem-lobo-do-homem baseado na obra de Lourenço Mutarelli – Benjamin não tem nada. Sua angústia parece vir dos mais infantis dos questionamentos. O que faço aqui? Para onde vou? Estou dando conta?

São as perguntas que parecem emergir quando, ao lado de uma prostituta de estrada, ele diz, angustiado: “Sou eu que faço rir, mas quem é que vai me fazer rir?”. A resposta da mulher, interpretada por Fabiana Karla, é uma risada. E um cruel: “Você é tão engraçado…”

A trupe do Circo Esperança

Benjamin faz rir sem querer. Fora dos palcos, como um personagem de “Primeiras Estórias”, ele “muito não se demonstra”. É o tímido bobo, ingênuo como aquele tio do interior que não casou nem liga para dinheiro; não vê a maldade que o cerca, doa a própria calça para não ver o amigo passar frio, e é capaz de passar horas contemplando o mundo, a chuva, a lua, os animais – e que fatalmente seria engolido na cidade grande. Benjamin é parte de um povo que, nas palavras de Milton Nascimento, “têm uma cabeça, um coração, uma emoção, uma coisa que em lugar nenhum do mundo se encontra”. “Por isso eu gosto do interior”, conclui o compositor, na entrevista sobre “A Terceira Margem”.

No filme, ao reconstruir o mito do palhaço, que em geral aponta fraturas por meio do riso ou da fingida loucura, Selton inverte o clichê; desta vez é o palhaço que precisa rir, respirar, encontrar caminhos, uma identidade.

Ao abandonar o circo, Benjamin tenta seguir com os próprios passos. Em vão

Pois é numa cidadezinha em Minas que Benjamim, enfim, troca seu combalido comprovante de nascimento por um registro civil, para oficialmente existir. Justo ali, no estado onde está sacramentada a identidade de parte do que a cultura brasileira já produziu de melhor – Rosa na prosa, Drummond na poesia, Sabino na crônica (Se sou mineiro? Bem, é conforme, dona…Sou de Belzonte, uai”), Milton na música, entre tantos de tantos.

Como seus pares, e com a ajuda de uma atuação eloquente de Paulo José (Valdemar, dono do circo e par de Benjamin, seu filho, nos palcos), Selton Mello se rende, em “O Palhaço”, à cultura popular; ao jeito de falar, sobreviver e de fazer rir dos brasileiros mais brasileiros. Esta é a sua terra, sua tradição, e sua escola.

Minas e o cinema não poderiam estar mais bem representados.

Democracia boa é na casa dos outros!

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Vejam só! os democratas europeus argumentam que a democracia é o maior perigo para Europa e o mundo!!!

Para Sarkozy e Merkel, o plebiscito na Grécia será o fim da Europa.

E eu com minha inocência nunca pensei ouvir isso dos democratas radicais. Mas, então, por que o povo é legítimo nas eleições, e não para defender a soberania de seu país? Quer dizer, a democracia só é boa para lhes proporcionar o status, o poder.. Mas é má para todo o resto…

O mesmo chefe, democrata que é, demite as chefias militares com medo de um golpe de estado à maneira latina dos anos 60…

Ah!!! um apelo: Saddam, Kadafi, Pinochet, Medici, Costa e Silva, Salazar, Franco…voltem!!! voces tinham lá suas razões quando diziam que regime democrático é o melhor dos mundos, desde que o povo não participe da gestão da coisa pública.

Para que serve um economista?

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A situação da Grécia contribuiu para o regresso do político. Tenhamos alguma esperança.

 Amartya Sen – (Nobel da Economia 1998)

 Foi a Europa que conduziu o mundo à prática da democracia. Por isso, é preocupante que os perigos do governo democrático de hoje cheguem pela porta de trás da prioridade financeira e não estejam a merecer a atenção que merecem. Há questões importantes que têm de ser discutidas, como é o caso da governação democrática da Europa poder estar a ser ameaçada pelo papel excessivo das instituições financeiras e das agências de rating, que agora imperam livremente em algumas zonas do terreno político da Europa.

Dois assuntos diferentes têm de ser tratados de forma diferente. O primeiro diz respeito às prioridades democráticas, incluindo aquilo que Walter Bagehot e John Stuart Mill viam como uma necessidade de “governo por discussão”. Supõe que aceitamos que os poderosos patrões da finança têm uma ideia realista daquilo que é preciso fazer, o que reforçaria a necessidade de dar atenção às suas vozes num diálogo democrático. Mas isso não significa permitir que instituições financeiras internacionais e agências de rating tenham o poder unilateral de comandar governos democraticamente eleitos.

Em segundo lugar, é muito difícil ver que os sacrifícios que os líderes financeiros têm vindo a pedir aos países em situação difícil podem levar à viabilidade desses mesmos países e garantam a continuação do euro sem que haja reformas da fusão financeira e sem uma alteração dos membros da zona euro. O diagnóstico dos problemas financeiros feito pelas agências de rating não é a voz da verdade, como ela pretendem fazer crer. Vale a pena recordar que as avaliações das agências de rating a instituições financeiras e empresas antes da crise económica de 2008 apresentaram uma diferença tão abissal com a realidade que o Congresso dos Estados Unidos está a debater a possibilidade de as levar a tribunal.

Uma vez que a maior parte da Europa está agora empenhada em conseguir uma rápida baixa dos deficits públicos através da drástica redução da despesa pública, é essencial controlar de forma realista que impacto terão essas políticas, tanto na vida dos cidadãos como na receita pública através do crescimento económico. A moral elevada do fazer “sacrifício” tem, evidentemente, um efeito intoxicante. É a filosofia do espartilho “certo”: “Se a senhora se sente absolutamente confortável é porque, certamente, vai precisar do tamanho abaixo”. No entanto, se as exigências de adequação financeira também estão ligadas mecanicamente a cortes imediatos, o resultado pode ser a morte da galinha dos ovos de ouro do crescimento económico.

Esta preocupação diz respeito a vários países, da Grã-Bretanha à Grécia.

O ponto comum da estratégia de “sangue, suor e lágrimas” para a redução do deficit dá uma aparente plausibilidade daquilo que está a ser imposto aos países mais precários, como a Grécia e Portugal. E torna mais difícil a existência de uma voz política unida da Europa que possa levantar-se contra o pânico gerado nos mercados financeiros.

Para além de uma maior visão política, há necessidade de um pensamento económico claro. A tendência para ignorar a importância do crescimento económico na geração de receitas públicas deve ser um dos principais assuntos a ser discutido. A forte ligação entre crescimento e receitas públicas pode ser constatada em vários países, como a China e a Índia, os Estados Unidos e o Brasil.

Também aqui há lições a tirar da história. As enormes dívidas públicas de muitos países, no fim da Segunda Guerra Mundial, causaram uma grande ansiedade, mas o seu peso diminuiu rapidamente graças a um rápido crescimento económico. Da mesma maneira, o grande deficit que o presidente Clinton encontrou quando chegou ao governo, em 1992, dissolveu-se durante a sua presidência, com a grande ajuda de um rápido crescimento económico.

O temor de uma ameaça à democracia não se aplica, evidentemente, à Grã-Bretanha, uma vez que estas políticas foram decididas por um governo legitimado em eleições democráticas. Mesmo que o desenvolvimento de uma estratégia que não tenha sido revelada na campanha eleitoral possa ser razão para uma pausa, este é o género de liberdade que o sistema democrático permite a quem vence as eleições. Mas isso não elimina a necessidade de mais discussão pública, até mesmo na Grã-Bretanha. Também há que reconhecer que as políticas restritivas autoimpostas no Grã-Bretanha parecem dar plausibilidade às ainda mais drásticas medidas impostas à Grécia.

Como é que alguns países europeus se meteram nesta confusão? A extravagância de ter uma moeda única sem maior integração política e económica desempenhou parte do papel, mesmo depois de se saber das transgressões financeiras, sem dúvida cometidas, no passado, por países como a Grécia e Portugal (e mesmo depois da importante afirmação de Mario Monti, segundo o qual uma cultura de “deferência excessiva” na UE permitiu que essas transgressões continuassem por verificar).

Há que elogiar o governo grego – e George Papandreou, o primeiro-ministro, em particular – por estar a fazer o melhor que pode, apesar da resistência política, mas a sofrida vontade de Atenas em cumprir não elimina a necessidade europeia de refletir sobre a razoabilidade das exigências – o dos prazos – impostos à Grécia.

Para mim, não é consolo recordar que sempre me opus firmemente ao euro, apesar de ser um fervoroso apoiante da unidade europeia. A minha preocupação em relação ao euro dizia, em parte, respeito ao facto de cada um dos países abrir mão da liberdade de ter a sua própria política monetária e de fazer ajustes nas taxas de câmbio, o que muito ajudou, no passado, os países em dificuldades, e evitaria a enorme desestabilização das vidas humanas num esforço frenético para estabilizar os mercados financeiros. Pode abrir-se mão da liberdade monetária quando também há integração política e fiscal (como acontece nos vários Estados dos Estados Unidos), mas a casa meio construída da zona euro foi a receita para o desastre. A maravilhosa ideia de uma Europa democraticamente unida foi criada para incorporar um programa precário de fusão financeira incoerente.

Reordenar a zona euro agora tem muitos inconvenientes, mas os assuntos difíceis têm de ser discutidos com inteligência, em vez de permitir que a Europa fique à mercê de ventos financeiros alimentados por mentalidades tacanhas com um histórico de pensamento terrível.

O processo tem de começar por uma restrição imediata do poder sem oposição das agências de rating para darem ordens unilaterais. Estas agências são difíceis de disciplinar, apesar do seu negro historial, mas uma voz bem definida de governos legítimos pode fazer uma grande diferença enquanto as soluções são trabalhadas, especialmente se as instituições financeiras internacionais também colaborarem. Parar a marginalização da tradição democrática da Europa tem uma urgência difícil de exagerar. A democracia europeia é importante para a Europa – e para o mundo.

Um cafezinho…

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Bem ali, à beirinha… do outro lado, tomo café ou chá, compro patês e chocolates (chokito, da Nestlé; não é nenhum Kopenhagen, mas, pra quem conheceu o batom como primeiro derivado do cacau… tá bom demais da conta). Consumo na padaria aqui pertinho. Se fosse em Paris seria no Fauchon… Aqui no Brasil esses espaços são chamados de gourmet. É uma “mania nacional”, esperta, que cobra mais caro da gente pelo que deveria ser normal. Qualquer raspinha de Paris é goumert no Brasil. Aqui em Natal basta dar uma voltinha por alguns bairros da cidade e se observa goumert pra todos os gostos.

Mas a novidade na terrinha são os cafés. Lugares de sociabilidade, ao longo dos tempos, que passaram por processos de ressignificação mundo afora, ressurgem com força e que podem ser evidenciado pelas várias formas de organização: franquias (conheço três, uma em Lagoa Nova e duas na P. Negra), que se organizam em cadeias… Alguns cafés têm traço artesanal, outros, clássicos. E ainda, alguns tipos de sociabilidade (socialização, interação…). Bom, nem preciso dizer que eles variam de lugar pra lugar, dentro de um mesmo território… E aí tem a ver com os significados de cada pedaço de sociabilidade da cidade. Pra ficar somente num exemplo: em Ponta Negra os turistas, gringos são maiorias; já em Lagoa Nova e Petrópolis, “é nós”.

Voltando a nossa conversa, em Paris, pelo que escuto, esses cafés seriam simplesmente um café, um sítio, um cantinho, bem organizadinho, agradável de estar. Aqui, são espaços de luxo. Às vezes, penso que é mais uma perfumaria que um café. Por isso, prefiro os de livrarias onde ando, circulo, bato papo, pego livros e leio fragmentos tomando, apenas, dois, três dedos de café… Sem medo de incomodar os donos do negócio por estar ali “dando uns goles” num tiquinho, apenas.

Críticas revelam preconceito contra ascensão de Lula, avalia pesquisadora da USP

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Do Terra Magazine

A notícia de que o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva passará por um tratamento contra câncer na laringe no hospital Sírio Libanês foi recebida com protestos em redes sociais. Na internet, um grupo pede que o petista utilize hospitais públicos e o Sistema Único de Saúde (SUS). Para a pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo) Sandra Regina Nunes, “as críticas se apoiam no fato de Lula ter sido analfabeto e se tornado presidente, de ele ter ascendido”.

– Por que não se faz uma manifestação para que todo mundo use o SUS? A questão é menos de fidelidade com os ideais políticos e mais um preconceito. É como se questionassem: “Por que Lula tem que se tratar no Sírio Libanês? O lugar de onde ele veio não permite que isso aconteça” – questiona Sandra, membro do Laboratório de Estudos da Intolerância e professora de comunicação da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado).

Uma campanha no Facebook pedindo que Lula se trate no SUS já ganhou mais de 800 adeptos. Os internautas também se organizam para divulgar as críticas em sites de notícias. A rede de TV internacional CNN, por exemplo, publicou a informação sobre a doença do ex-presidente e recebeu uma série de comentários irônicos de brasileiros sobre o sistema de saúde nacional.

Leia a entrevista.

Terra MagazineO anúncio de que o ex-presidente Lula sofre de câncer foi seguido por manifestações críticas e um protesto para que ele se trate no SUS. Por que esse tipo de expressão acontece e se espalha na internet?

Sandra Regina Nunes – O que me parece é que tem algo bastante próprio daqui do Brasil. As críticas se apoiam no fato de Lula ter sido analfabeto e se tornado presidente, de ele ter ascendido. Isso é visto quase como uma afronta. Faz com que as pessoas acreditem que necessariamente ele deveria ser fiel àquilo que ele pregava. Por muitas vezes ouvi pessoas dizendo “Ah, ele era trabalhador, não podia estar usando Armani”. Agora dizem que o Lula tem que usar o SUS. Não me parece que aconteceu isso quando alguém do PSDB tem algum tipo de problema de saúde. Por que não se faz uma manifestação para que todo mundo use o SUS? A questão é menos de fidelidade com os ideais políticos e mais um preconceito. É como se questionassem: “Por que Lula tem que se tratar no Sírio Libanês? O lugar de onde ele veio não permite que isso aconteça”.

É curioso porque em geral anúncios como o do ex-presidente – de uma doença – geram apenas comoção

Eu acho que as pessoas não estão tratando como doença. A ideia é mais questionar o motivo de Lula estar usando um produto de luxo.

As redes sociais ampliam esse tipo de reação negativa?

As redes sociais fizeram com que as pessoas tivessem maior liberdade de expressão. Eu acredito que as pessoas poderiam usar isso de forma mais interessante. Existem na rede movimentos bastante positivos, por exemplo, em apoio à saúde da mulher. Então, utilizar as redes sociais para dar vazão à indignação pode ser ruim, mas tem lados positivos. As redes sociais têm essa dimensão que é muito boa. É a possibilidade de expressão.

Seria papel da imprensa desestimular?

Eu acho que o gesto de expressão não deve se impedir jamais. É preciso dar voz a todo mundo. Mas o papel da imprensa deve ser pontuar o que determinadas falas representam. Ou seja, dizer que tipo de movimento é esse e o que é que ele traz.

No xaxado com Lampião

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Fonte: Folha SP

A octogenária Alzira Marques recorda os bailes animados organizados pelo rei do cangaço

Da Carta Capital

Noite de sábado para domingo, fim de setembro de 1936. Faltava só passar o pó no rosto, espalhar o perfume atrás da orelha e calçar as alpercatas. Cabelos negros e encaracolados na altura da cintura, dentro do seu melhor vestido, a menina de 12 anos, que, se os pais se descuidassem, trocava o estudo pela dança, estava pronta para o seu primeiro baile no alto sertão sergipano com o bando do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Não havia escolha, só mesmo confiar na bênção da tia de criação antes de sair de casa engolindo o medo.

“Eles mandavam apanhar a gente. Vinha aquela ordem e tinha de cumprir. Se não, causava prejuízo depois”, conta Alzira Marques, que completa 86 anos em agosto. Ela lembra detalhes das incontáveis festas cangaceiras a que foi em fazendas que já não existem mais e que deram lugar à planejada Canindé de São Francisco, com o início da construção da hidrelétrica do Xingó, em 1987. Canindé Velho, como a sertaneja chama o local onde nasceu, à beira do Velho Chico, foi demolida por conta da usina, hoje fonte de renda para a cidade – atrai quase 200 mil turistas por ano com o Cânion do Xingó.

O auge de Lampião em Sergipe vai de 1934 a 1938, quando o cangaceiro foi morto ao lado de Maria Bonita e outros nove do bando, em 28 de julho, na Grota do Angico, município de Poço Redondo. “Este é o estado onde ele encontrava mais proteção, aliando-se aos poderosos locais, como o coronel Hercílio Porfírio de Britto, que dominava Canindé como se fosse um feudo”, explica Jairo Luiz Oliveira, da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço. “São os chamados coiteiros (quem dava proteção ao cangaço), políticos de Lampião. Melhor ser seu amigo que inimigo.”

Foi nas terras de Porfírio de Britto que Alzira mais arrastou as sandálias. “Na primeira vez, encontrei Dulce, que foi criada comigo em Canindé Velho e tinha virado mulher do cangaceiro Criança. Eles também eram de muito respeito e nunca buliram com gente minha. Pronto, não tive mais medo”, relembra. Temporada de baile era fim de mês, quando as volantes da Bahia e Pernambuco – as polícias mais algozes no rastro de Lampião – voltavam a seus estados para receber o soldo. “Aí os cangaceiros viam o Sertão mais livre para fazer festa”, diz.

Dia de dança, Alzira tinha de sair e voltar à noite para não levantar a suspeita dos vizinhos. Às 22 horas, punha-se a andar 2 quilômetros até o local onde um coiteiro escondia os cavalos. Outras meninas iam junto. Montavam e seguiam morro acima por uns 15 minutos. “Quando a gente chegava, ia direto dançar o xaxado, forró, o que fosse, até 4 horas da manhã.” Mesmo caminho de volta, chegava com um agrado do rei do cangaço: uma nota de 20 mil réis. “Era tanto do dinheiro, mais de 300 reais na época de hoje. Dava tudo para minha tia.”

Apesar de festeiro, não era sempre que o líder do bando dava o ar da graça. Quando ia, porém, não se fazia de rogado: no mato à luz de candeeiro, onde o arrasta-pé comia solto, brilhantina no cabelo, dançava com as moças do baile sem sair da linha. Média de 20 homens para 15 mulheres. “Ninguém era besta de mexer com a gente. Eles nos respeitavam demais. Lampião era o que mais recomendava: ‘Olha o respeito!’” Maria Bonita – que para Alzira “não era lá essa boniteza, Maria de Pancada era mais bonita” – não tinha ciúme.

O cangaceiro mais conhecido do Brasil gostava de cantar e levava jeito para compor. Quem não se embalou ao som de Olé, mulher rendeira / Olé, mulhé rendá? Ou de Acorda, Maria Bonita / Levanta, vai fazer o café? Alzira conta que era comum ele pedir ao sanfoneiro Né Pereira – outro intimado do povoado – para tocar essas canções, enquanto ele mesmo cantava. “Letra e música dele, além de ser um exímio tocador de sanfona”, confirma Oliveira.

Os bailes eram como banquetes. “Tinha comida e bebida de toda qualidade. Peixe, galinha, porco, carneiro, coalhada, bolo, cachaça limpa”, diz Alzira. Outro ponto que se notava era o aroma: os cangaceiros, que podiam passar até 20 dias sem tomar banho, gostavam de se perfumar. O coronel Audálio Tenório, de Águas Belas (PE), chegou a dar caixas de Fleurs d’Amour, da marca francesa Roger & Gallet, para Lampião. “Era perfume do bom, mas misturado com suor. Subia um cheiro afetado. A gente dançava porque era bom”, afirma a senhora, que se entrosava mais com Santa Cruz e Cruzeiro.
Mais de 70 anos depois, Alzira ainda sonha com aquelas noites e sente falta da convivência com os amigos: muitas festas aconteciam em Feliz Deserto, fazenda que Manuel Marques, seu então futuro sogro, tomava conta. Não raro, o brilho da prata e do ouro das correntes, pulseiras e anéis dos cangaceiros visitam sua memória, assim como a imagem de Lampião lendo a Bíblia num canto da festa. “Ele era muito religioso.” No seu pé de ouvido fica o xa-xa-xá das sandálias contra o chão, som que deu nome ao xaxado, segundo Câmara Cascudo, ritmo tipicamente cangaceiro que não se dança em par.

Testemunha de um período importante da história do País, conta que nunca teve vontade de entrar para o cangaço nem considerava Lampião bandido: “Não era ladrão, ele pedia e pagava, fosse por uma criação, por um almoço. Agora, se bulissem com ele, matava mesmo”. Na cidade é conhecida como a Rainha do Xaxado. No último São João, que antecipou as comemorações do centenário de nascimento de Maria Bonita (8/3/1911), foi uma das homenageadas.

Balançando-se na rede na entrada de sua casa, satisfeita com os dez filhos, 40 netos e 37 bisnetos, Alzira aponta para um dos locais onde dançou com Lampião: uns 100 metros adiante, a Rádio Xingó FM. “Continua lugar de música.” Mas e Lampião, dançava bem? “Ah, ele dançava bom.”•

 

O perfeito imbecil

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No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião. Saiba como reconhecê-lo.

 DA CARTA CAPITAL

Por Cynara Menezes. Foto: Reprodução

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.

Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:

1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.

2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.

3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir idéias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

 

show do Lenine em Natal…

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Sábado (29/10) fui ao Teatro Riachuelo ver o show do Lenine. Foi um dos melhores que assisti… Lenine está apurado… Aliás, sempre foi. Belo show!  Canta com a alma, tira o som que quer do violão. Cantou o que quis e jogou musicas do cancioneiro popular nordestino em cima de suas harmonias misturadas de maracatu com baião, coco, funk, forró, soul… No final, cantou duas músicas do seu mais novo CD, “chão”, com composições inéditas em parceria com Carlos Rennó, Lula Queiroga, entre outros. Ah! não posso esquecer: sua banda estava maravilhosa!

 

Oia eu aqui de novo!

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Amigos (as) meus, estou de volta ao roçado, depois de muito tempo ausente. A ausência não foi por desinteresse (?), não foi por preguiça (?), mas, sim, por falta de tempo. A dedicação ao(s) trabalho(s), nos últimos meses, não me permitiu dedicar tempo a escrever. Não pretendo repetir a experiência de ficar tanto tempo sem prosear com vocês.

 

Chico Buarque é mais gravado que Roberto Carlos e Caetano Veloso

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Composição mais regravada do músico, “Gente Humilde”, bate “Emoções” e “Sampa”

Direto do IG

Nem “A Banda” nem “Apesar de Você”, muito menos “Olhos nos Olhos” ou “Vai Passar”. A música mais regravada de Chico Buarque é “Gente Humilde”, parceria do músico com Vinicius de Moraes e Garoto composta em 1970. Segundo um levantamento feito pelo Ecad (Escritório Central de Distribuição e Arrecadação), a música tem 126 gravações. Deixou para trás composições como “Anos Dourados” (segundo lugar, com 70 gravações) e “Retrato em Branco e Preto” (terceira posição, com 64 gravações).

O levantamento comprova também que, no quesito regravações, Chico Buarque deixa para trás até Roberto Carlos. A primeira colocada do Rei, “Emoções”, foi regravada 57 vezes. Caetano Veloso também fica atrás de Chico Buarque: sua campeã, “Sampa”, tem 55 regravações. Roberto Carlos, no entanto, ganha no quesito arrecadação: segundo o Ecad, ele e seu parceiro Erasmo Carlos são os compositores que mais arrecadaram com direitos autorais nos últimos dez anos.

Segundo a assessoria do Ecad, não existe um ranking com as músicas mais regravadas do Brasil que inclua todos os autores. O levantamento das obras desses três compositores foi feito a pedido do iG. Veja abaixo a relação das dez músicas mais regravadas de Chico Buarque, Roberto Carlos e Caetano Veloso:

Chico Buarque
01. “Gente Humilde” (126 gravações)
02. “Anos Dourados” (70 gravações)
03. “Retrato em Branco e Preto” (64 gravações)
04. “Beatriz” (59 gravações)
05. “Carolina” (51 gravações)
06. “Quem Te Viu, Quem Te Vê” (45 gravações)
07. “O Cio da Terra” (43 gravações)
08. “Todo Sentimento” (43 gravações)
09. “A Banda” (43 gravações)
10. “Sabiá” (42 gravações)

Roberto Carlos
01. “Emoções” (57 gravações)
02. “Como É Grande o Meu Amor por Você” (43 gravações)
03. “Sentado À Beira do Caminho” (35 gravações)
04. “Detalhes” (34 gravações)
05. “Se Você Pensa” (29 gravações)
06. “Quero que Tudo Vá Para o Inferno” (28 gravações)
07. “De Tanto Amor” (27 gravações)
08. “Jesus Cristo” (27 gravações)
09. “Proposta” (27 gravações)
10. “Olha” (26 gravações)

Caetano Veloso
01. “Sampa” (55 gravações)
02. “Você É Linda” (49 gravações)
03. “A Rã” (42 gravações)
04. “Luz do Sol” (36 gravações)
05. “Força Estranha” (35 gravações)
06. “Baby” (31 gravações)
07. “Coração Vagabundo” (27 gravações)
08. “Paula e Bebeto” (25 gravações)
09. “Desde Que o Samba É Samba” (23 gravações)
10. “Menino do Rio” (22 gravações)

Tânia Bacelar recebe Troféu Tejucupapo – Mulher Nordeste VinteUM

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A socióloga e economista Tânia Bacelar será agraciada com o Troféu Tejucupapo – Mulher Nordeste VinteUM.   A entrega do prêmio acontece no dia 06 de junho, às 19h, no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife.

O troféu, segundo o diretor-presidente da revista Francisco Bezerra, é um reconhecimento em vida às histórias e conquistas das guerreiras nordestinas. “Consideramos sua dedicação ao Nordeste estudando planejamentos estratégicos para o desenvolvimento dessa região. Além disso, a história das Heroínas de Tejucupapo se confunde com a história de Tânia”, enfatizou.

Antes da entrega do prêmio, houve um recital em alusão a batalha das Heroínas. A interpretação foi da atriz Luciana Lyra, que transformou em sua dissertação de doutorado a história das mulheres do vilarejo de Tejucupapo, em Goiana. O ministro da Integração, Fernando Bezerra Coelho, declarou que Tânia “ofereceu sua contribuição à minha gestão quando secretário de Pernambuco. Suas orientações foram úteis na formulação de políticas públicas para colocar o Estado na posição que está. Como ministro, estamos nos valendo do talento de Tânia para construir propostas de gestão”, afirmou.

Segundo Tânia Bacelar, a origem do prêmio é para quem se destacou no Nordeste e “essa região sempre foi meu objeto de estudo e trabalho, principalmente, durante os 20 anos que passei Sudene, entre 1966 a 2006. Me sinto honrada com o reconhecimento do meu trabalho”, contou.

Leia a seguir o discurso de Tânia:

Minhas palavras iniciais são de agradecimento

Introdução

Como o critério deve ter sido o trabalho que venho realizando ao longo de minha vida profissional, vou aproveitar a oportunidade para usar este tempo que me é dado, para falar de meu principal objeto de estudo e de trabalho: o Nordeste brasileiro.

As mudanças no Nordeste

Olhando o Nordeste que conheci ao entrar na SUDENE no final dos anos 60 não dá para negar que mudanças importantes se verificaram.

O avanço da indústria e do terciário moderno nas grandes cidades – que também cresceram e se modernizaram, ao mesmo tempo em que reproduziram o padrão de miséria que marca todas as periferias urbanas do país -, é visível a olho nu.

O surgimento de novas e modernas bases agrícolas, nos vales de nossos principais rios ou na porção nordestina do cerrado brasileiro criou novas frentes de expansão econômica que atraíram muita gente daqui e de fora. Os gaúchos que o digam.

Outra mudança importantíssima foi o desmonte da velha estrutura montada no semi-árido, com o fim do algodão. E a busca de novos rumos para este imenso território, agora tendo em mente a “convivência com a realidade da caatinga”, mesmo estando ela ameaçada pelo avanço da desertificação em tempos de aquecimento global… Desmonte que fragilizou as bases políticas dos herdeiros dos velhos coronéis…

Igualmente relevante foi a redução do peso econômico (e político) de outro velho complexo: o sucro – alcooleiro, que perdeu importância na economia da região e que assistiu a seu deslocamento para as terras do Sudeste e Centro –Oeste, hoje lideres nacionais na produção do etanol.

O Nordeste promoveu também o desenvolvimento de numerosas bases econômicas locais, algumas delas articuladas no mercado nacional e até mundial, fruto da capacidade empreendedora de nossa gente. Gente que não se entrega, mesmo vivendo em um contexto nada favorável, nem se deixa abater pela leitura preconceituosa dos que pensam que aqui só existe miséria e submissão aos poderosos.

O fim da seca como drama social é outra mudança que veio com o avanço das políticas sociais no Brasil redemocratizado.

A Constituinte, em 1988, estendeu a Previdência ao meio rural e cobriu os velhos com o manto protetor do Estado. E o programa Bolsa Família alargou o cobertor, apesar das criticas dos conservadores.

No inicio do século XXI, com o país retomando seu crescimento puxado pela dinâmica do consumo popular, o Nordeste, junto com o Norte, foi positivamente afetado. Lidera as vendas no comercio varejista desde 2003…

E o consumo dinâmico atraiu o investimento: que o digam o BNDES e o BNB…

Assim, o NE viu o emprego formal crescer a taxas superiores às do Sudeste e Sul ( 6,3% contra 5% , entre 2002 e 2010, segundo a RAIS) e o rendimento familiar real da sua PEA crescer acima da media nacional ( 6,2% versus 4,5%, segundo a PNAD).

Viu a Petrobras trazer 3 das suas novas refinarias para a região e usar seu poder de compra para levar estaleiros a PE, MA, BA e AL.

Viu as Universidades se interiorizarem, mudando a fisionomia de varias cidades media da região, e abrigarem alguns Institutos Nacionais de Pesquisa em áreas de ponta do conhecimento: como o de Neurociências ( na UFRN) e Fármacos ( na UFPE).

Viu sua infra- estrutura econômica melhorar, como novos modernos portos e aeroportos, com a duplicação de rodovias estratégicas como a BR 101, ou com a construção da ferrovia Transnordestina ( velho sonho, que ainda está incompleto, pois precisa passar de Eliseu Martins para chegar na Norte-Sul).

Mas há muitas resistências a superar e obstáculos a vencer

A velha estrutura fundiária é a maior peça de resistência. Quase um tabu. Os avanços são marginais, apesar da luta dos movimentos sociais. E a melhoria da vida de muitos nordestinos esbarra aí.

O ensino fundamental de qualidade é outro velho obstáculo a um verdadeiro avanço social: se expande quantitativamente, mas o IDEB coloca a região em lugar vergonhoso. Principalmente para as necessidades do século XXI.

Mas há novos desafios a enfrentar

O pré- sal é um dos novos desafios. O setor de petróleo e gás já lidera o investimento na indústria do país e vai ampliar seu peso na dinâmica da economia nacional nas próximas décadas. E deve estimular uma interessante cadeia de fornecedores. O problema é que 2/3 dos atuais produtores desta rede de fornecimento está no Sudeste. O pré sal pode atuar como um vetor de reconcentração industrial nas áreas mais ricas do país. Estudo do CEDEPLAR/UFMG sobre os impactos regionais do PAC 2 ( que já inclui os resultados iniciais da exploração do pré-sal) já sinaliza nesta direção. Pernambuco percebeu tal ameaça e tenta estruturar o SUAPE GLOBAL como forma de se credenciar como pólo nacional de fornecimento de equipamentos e serviços a indústria do petróleo e gás. Mas o esforço necessário é muito maior! Aqui e em outros Estados do NE.

Outro desafio, ainda na área de energia, é o de fazer avançar na região a produção de energias renováveis , como a eólica , a solar, a biomassa, etc. Há esforços nesse sentido e avanços iniciais, mas o desafio é muito maior.

A integração sulamericana também fustiga o Nordeste. O Brasil já decidiu ampliar sua integração com os vizinhos da America do Sul e o projeto IIRSA é a concretização de investimentos que visam ampliar a integração física da região, via investimentos estratégicos em infra-estrutura de logística. O Nordeste está fora da IIRSA, cujo mapa atual de investimentos não inclui nada em nossa região.

Estes são alguns dos novos desafios.

Mas há um antigo: vencer o hiato entre o padrão de vida da maioria dos nordestinos e a da grande parte dos demais brasileiros. Aqui ainda estão 60% dos mais pobres do país, destacou o recém lançado Programa de Erradicação da Miséria.

De que serviram tantos avanços, se a vida concreta de tantos nordestinos ainda é tão precária? Se as oportunidades não lhe chegam?

Ainda há muito a fazer! E espero que prêmios como este estimulem as pessoas a lutar por um Nordeste melhor. Por isso dedico o que ora recebo aos que não se acomodam com algumas melhorias, não se contentam com migalhas (como faziam nossos velhos oligarcas… Continuam querendo mais avanços… Muito mais!

Obrigada!

DO BLOG DO PAULO HENRIQUE AMORIM

‘Diversidade na França é cosmética’, diz sociólogo franco-argelino

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Do Opera Mundi

Encoberto sob o “véu” dos valores republicanos, o mito da diversidade francesa se dirige para uma encruzilhada. A extrema-direita desponta mais forte e perigosa do que nunca como opção eleitoral (Marine Le Pen investe na imagem de “Paz e Amor”); a Primavera Árabe, em estágio de impasse, coloca a questão migratória na Europa no olho do furacão, tornando-se como moeda de troca na formação de governo e incitação à xenofobia em debates eleitorais; o governo Sarkozy desponta como um dos artífices para delimitar a livre circulação de pessoas no Espaço Schengen; a crise econômica e o desemprego parecem estar longe de serem efetivamente combatidos.  De fato, a diversidade está longe de ter, em solo francês, e mesmo europeu, um peso similar aos três preceitos que passaram a caracterizar a sociedade moderna desde 1789.

Para abordar essa realidade e a possível desconstrução desse mito, o sociólogo franco-argelino El Yamine Soum, 32 anos, especialista em temas relacionados à diversidade e etnicidade foi entrevistado pelo professor de Economia da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) Pedro Chadarevian, que colaborou com Opera Mundi. Também especializado em questões raciais no mercado de trabalho, outros artigos e intervenções de Chadarevian podem ser encontrados em seu blog  Outra Economia.

Soum é professor de Relações Internacionais no Instituto Internacional do Pensamento Islâmico em Paris. Ele também tem uma série de publicações em livros na França, Espanha, EUA e México. Também é co-autor, ao lado do sociólogo francês Vincent Geisser (Discriminar para melhor Reinar, em português), de um livro sobre a diversidade na política. È figura carimbada em intervenções na mídia e em conferências relacionadas ao tema. Trabalha também para programas de cooperação na área patrimonial e de turismo com vários países, entre eles: Mali, Chile e Vietnã.

Com frequência, é dito que, na França, não existe racismo. Porém, a segregação racial residencial, assim como a do mercado de trabalho, é marcante no país. A diversidade é, então, um assunto do momento?
O racismo infelizmente permeia todas as sociedades e a França está longe de se ver livre desse fenômeno. A questão da diversidade – o que significa, em francês, dizer entre os dentes “árabe” e “preto” –, é um assunto do momento, mas, sobretudo, um assunto polêmico.

A campanha presidencial que se aproxima vai, certamente, reservar um grande espaço para esse tema, principalmente para a questão da presença muçulmana na França. É também uma excelente estratégia de distração: ocupando o espaço midiático com esses assuntos, uma parte da classe política francesa demonstra sua incapacidade em resolver os problemas dos franceses.

Ao contrário do que ocorre nos EUA e no Brasil, aqueles que sofrem racismo na França não têm um movimento nacional bem organizado. Como mobilizar os jovens provenientes da imigração na luta contra a discriminação?
Na França, a tradição republicana exige que não se fale de etnias ou de raças. É um mecanismo muito sutil porque, na verdade, os debates, ao mesmo tempo midiáticos, políticos e acadêmicos, são marcados pela etnização. Há muitos agentes que se mobilizam contra as discriminações, algumas associações que, por vezes, são trampolins políticos para os fundadores: o famoso “eu” por um nós.

Outros agentes se mobilizam de um ponto de vista econômico, tentando criar redes de apoio mútuo e treinamento. Depois, há as mobilizações de algumas instituições porque o direito europeu exige mais legislações novas sobre o assunto, essas são as diretrizes europeias transponíveis ao direito francês.

Enfim, há alguns anos, as empresas se envolvem na promoção da diversidade nas suas políticas por várias razões, geralmente econômicas e para melhorar a sua imagem. Acredito que são os agentes que mais atingem o público jovem, há uma série de agentes culturais, como os cantores, os rappers que denunciam a discriminação.

A batalha da constatação está ganha, temos um número considerável de estudos que demonstram a realidade e a persistência da discriminação no sistema francês. Resta agora encontrar soluções, o que não é uma tarefa fácil.  Ver Mais