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dostoievski O jogador (13.5.2003) – Bráulio Tavares

Existem sujeitos viciados em algo porque uma substância química (álcool, nicotina, cocaína, o que fôr) interferiu no seu metabolismo e eles precisam ficar recorrendo a novas doses para recuperar algum tipo de equilíbrio, mesmo artificial. Existem pessoas, contudo, que se viciam em comida, como aquela mulher que pesava 300 quilos e perdeu 200 (dizem que o sonho dela era ir ao programa de Jô Soares e dizer: “Eu perdi 1 você!”). Existe gente viciada em chocolate, em sexo, em jogo.

O resto eu sei por quê; mas o vício no jogo é o que me fascina. Como é que alguém se deixa viciar numa coisa tão besta quanto baralho, roleta, dados, máquina caça-níqueis, Mega-Sena, raspadinha? Grandes gênios da humanidade tiveram esse defeito. Edgar Allan Poe e Dostoiévski são os primeiros que me ocorrem, mas certamente teve mais gente, e preciso ter uma teoria a respeito.

Digamos que o sujeito que se vicia em jogo tem fascinação pela matemática. Baralho envolve uma abordagem do cálculo das probabilidades, uma comparação entre o que aconteceu até agora e o modo como isso afeta (ou não) o que vai acontecer a seguir. Lembro de meus pais e minhas tias jogando buraco, quando eu era pequeno. Minha mãe vigiava o bagaço, murmurando: “Tá saindo muita espada…” Eu quase podia ver, no interior dos crânios deles todos, as maquininhas calculadoras comparando as cartas já baixadas na mesa com as cartas recusadas por Fulano ou aceitas por Sicrano. Baralho envolve memória, e inteligência estatística. Mas, e a roleta dos cassinos? Nada faz com que aquela bolinha saltitante prefira este ou aquele número, e o fato de ter dado Vermelho 27 não impede que na próxima rodada dê Preto 17, como no tango de Herivelto Martins e David Nasser. Aí ninguém controla a mesa, é sorte pura, azar puro.

Para a ciência, o vício do jogador vem da norepinefrina, que é segregada em momentos de estresse, de grande risco ou de excitação intensa. É uma prima-em-segundo-grau da adrenalina. Substâncias desse tipo são produzidas pelo próprio corpo, em vez de serem injetadas ou aspiradas. O viciado se auto-aplica, buscando situações onde tem certeza que aquele efeito será repetido. A vida parece mais intensa naqueles instantes; percepção mais aguda, raciocínio mais rápido, intuição quase infalível. É como se ele tudo soubesse, tudo captasse. Eita viagem!

O jogo também tem um lado místico. O Acaso-e-Destino é a força mais temida e menos compreendida do Universo. O jogador, quando ganha, começa a crer que está dobrando essa força diante de sua vontade, ou que pelo menos está firmando um pacto com ela. Jogadores ganham, e acham-se invencíveis; jogadores perdem, e acham que a maré vai virar; e todos apostam de novo. O jogador tem sede de padrões simétricos. Em toda sequência aleatória de resultados julga perceber um criptograma sobrenatural; e lá vai ele de novo. Ninguém resiste a uma saideira de norepinefrina, e vai pela vida afora, coçando a orelha do valete

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