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Brasil CablocoO POETA ZÉ DA LUZ

Por José Lins do Rego (*)

Pediu-me Zé da Luz um prefácio para o seu livro de versos. E eu lhe disse: Meu caro poeta, você não precisa de prefácios, porque a sua poesia fala com mais autoridade que qualquer palavra de apresentação. Que autoridade terei para dar carta de fiança a quem possui os melhores tesouros deste mundo? Ora, Zé da Luz, você vale pelo que é, e não pelo que se possa dizer de você.

O livro que você me deu para ler, li-o de uma vez só, eu que sou mais impaciente que um azougue, que tenho a atenção tão frágil para as coisas, que só paro quando, de fato, vence-me uma grandeza real. Li-o de um golpe, até alta hora da noite, e posso dizer que, lendo-o, era como se estivesse na nossa terra, no convívio da nossa gente, a escutar o falar arrastado do povo, dos erres comidos, nos eles sem fôrça. Mas falar que me ligava à infância, aos tempos de menino de engenho, às conversas de eito, aos dias de festa, aos cantadores do sertão, aos mestres da viola, às histórias de valentes, aos romances de amor puro como as flores das caatingas, no inverno. E de tanto ler o seu livro e de tanto gostar dos seus versos, meu caro poeta dos vaqueiros, dos carros de boi, das noites, das chuvas, das dores do povo, me senti outra vez paraibano, mais filho do Pilar, das várzeas de cana, dos cantos dos nossos canários amarelos e dos galos de campina de cabeça encarnada. Tôda a Paraíba está na sua poesia, meu caro poeta. E se você tem esta fôrça para poder cantar a nossa terra, como canta, para que prefácios?

Que prefácios pediriam às patativas de Mamanguape, aos curiós de Gramame, às cigarras de Areia?

Que cantem você e os pássaros, poeta, da minha amada Paraíba, é tudo o que mais quer o seu maior admirador
(*) Prefácio da edição de “Brasil Caboclo”, de Zé da Luz

Por Manuel Bandeira (*)

“Se eu falar de Severino de Andrade e Silva, ninguém saberá quem é. E o que adiantaria saber que se trata de um caboclo franzino e feio, nascido em Itabaiana, na Paraíba, aos 29 de março de 1904, filho de pais pobres, que não lhe puderam dar senão a instrução primária, alfaiate de profissão até 1951, quando foi aposentado por invalidez pelo Instituto dos Comerciários. Mas Severino tem outro nome e deste todo mundo já ouviu falar: Severino é Zé da Luz, poeta-cantador, já consagrado pelo livro Brasil Caboclo (…)

Zé da Luz, depois de publicar Brasil Caboclo, veio de mudança para o Rio e, durante muitos anos, ganhou a vida cortando roupas para O Pavilhão, casa vizinha à Livraria José Olympio, rende-vous de figuras ilustres das letras nacionais. Todavia, o alfaiate-cortador continuou poeta, e a saudade de sua Paraíba, da ainda mais sua Itabaiana, veio desovando nos versos deste Sertão em Carne e Osso, versos mais tristesdo que os do primeiro livro, mais líricos.” (…)

(*) Manuel Carneiro de Souza bandeira Filho (Recife, 19/4/1886 – Rio de Janeiro,13/10/1968), poeta, tradutor, cronista e historiador literário. Considerado um dos maiores poetas brasileiros do Século XX.

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