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O documentário “O fim e o princípio” do Eduardo Coutinho me tocou demais. Já assisti umas poucas de vezes. É um filme espetacular. Foi feito no sertão paraibano, num município que fica dentro do polígono da seca, depois de Campina Grande como quem vai de J. Pessoa para Juazeiro do Padim Ciço, pertinho de Cajazeiras

Pois bem, Coutinho se embrenhou pelo sertão afora, e foi bater no município de Rio do Peixe para enxergar um outro lado, o lado dos  viventes da região, como bem diria Luis Gonzaga, “(…) Esse sertão sofredor / Sertão das ‘mulher séria/ Dos homens trabalhador”. Foi espiar os queixumes e as reminiscências…  Saiu sem roteiro, sem plano. O filme foi parido dessa doidice, e nos mostra o poder do cinema de pegar a vidinha simples de gente que “não é ninguém” numa “cidadezinha” do interior. Gente que não é famosa, não tem os traços da beleza da rosa, não é rica… mas que passaram a vida pelejando pela sobrevivência.

Quem guia seu Coutinho pelos arredores da cidade é Rosa; uma moça que mora numa localidade rural, professora, e que é voluntária da pastoral da criança. Bem comunicativa, falante…  Foi ela que planejou as visitas e abriu todas as conversas entre o cineasta e a comunidade.

A história é narrada por gente velha, que conseguiu viver 70, 90 anos. Rostos com traços marcados pelos aperreios da vida, vozes roucas, pigarreado, peito encatarrado… Vidas cheias de privações… mas que se abarrotaram de trabalho. Vida pobre, mas não de miséria. Nos quatro cantos das salas vemos cadeiras, móveis simples, quadros de Stª Luzia, Nossa Senhora, arreios de animais atrepados nas paredes… E a rainha da casa, a televisão.

Seu Coutinho fica cara a cara com cada um. Olhos arregalados, serenos… de quem pagou tintim por tintim da conta ao mundo. Uma diz que está sem dormir… passa a noite no escuro, sentada na rede, tomando café e fumando. Outra já diz que o maior prazer é assistir uma novelinha, e depois deitar, e dar cochilos no chão. Tem um senhor, que pela idade, não consegue enxergar direito, mas mostra um troféu que ganhou num concurso de poesia e recita o soneto. Já outro senhor, daqueles que tem uma letrinha… estudou, semi-letrado, ler e mostra os ensinamentos da Bíblia. Também, tem aquele mais arremediado… que tira o sustento porque descobre e vende água no sertão… Fala com entusiasmo. Já outro tem olhos espertos, bem vivos… que ficam sério, riem… e que fica o tempo todo na peleja com o “doutor” acerca da filosofia da vida… se esquivando das ciladas armadas pelo “doutor” na prosa, prestando bem atenção nas palavras do “doutor” para não ser pego de surpresa.

Viver ali já é uma provação grande. O pior já passou. São sobreviventes de uma peleja. Isso me faz lembrar Guimarães Rosa: “viver é muito arriscoso e o que a gente quer dela é coragem!” Encaram a morte com naturalidade, não falam nem de “a” nem de ‘b”, nem de Governos… O Prazer maior do sertanejo é oferecer um cafezinho, almoço, repartir o pouco que tem de comida… e prosear sobre a vida. A hospitalidade é uma virtude desse povo.

O elogio desse chão sertanejo tem duas pulsões conflitantes, uma que se ressente do que ficou prá trás, das perdas… outra que busca às promessas da esperança, do ganho. Isso está fincado no imaginário do sertanejo. Basta ver o xote de Zé Dantas e Luis Gonzaga: “La no meu pé de serra/ Deixei ficar meu coração/ Ai que saudade eu tenho/ Eu vou voltar pro meu sertão”. No baião de Luis: “Só deixo o meu Cariri/ No último pau-de-arara”. Ou ainda a louvação da perseverança em atingir a meta: “Quando eu vim do sertão/ Seu moço, do meu Bodocó/… Só trazia a coragem e a cara/ Viajando num pau-de-arara/ Eu penei… mas aqui cheguei”. E ainda no hino nacional dos retirantes, Asa branca (1947): “Hoje longe muitas léguas/ Nesta triste solidão/ Espero a chuva cair de novo/ Pra mim voltar pro meu sertão”. Dominguinhos também cantou os anseios retrospectivos: “Por ser de lá/ do sertão (…) Eu quase não falo/ Eu quase não tenho amigos/ Eu quase que não consigo/ Viver na cidade sem viver contrariado”.

O sertão é assim: “(…) Sertão das ‘mulher’ séria / Dos homens trabalhador”. E foi isso que o Eduardo Coutinho, em “O fim e o princípio”, quis mostrar prá gente. Quis mostrar a granel, “ (…)  Coisas que prá mode ver / O cristão tem que andar a pé”.

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