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Logo após a transição para a modernidade (período em que Elizeth Cardoso se consagra como diva), a música brasileira dos anos 60 teve, quase ao mesmo tempo, três cantoras maravilhosas, com grandes composições: Maria Bethania, Elis Regina e Gal Costa. Cantaram o que de melhor fizeram para a canção brasileira (de Tom Jobim, Carlos Lyra, Edu Lobo, Menescal, Chico Buarque, Gil, Caetano, Roberto Carlos, Milton Nascimento, João Bosco, Marcos Valle, Hime, Paulinho da Viola, Belckior, e tantos outros. Digam-me, que outros intérpretes puderam desfrutar de tantas coisas boas, diga-se de passagem, inéditas, vinda desses caras, aí?

Bem, hoje vamos de Gal. Vocês devem notar que ela transita de uma voz doce, açucarada (um João Gilberto de saia) a um canto rasgado, sujo, meio Janis Joplin. Canta Jards Macalé, Luis Melodia, Wally Salomão (fase hippie que resistia a ditaduta… Gil e Caetano foram exilados). Foi assim quando defendeu “Divino Maravilhoso” no 4º Festival da TV Record, em 1968; tempos do Tropicalismo. E aí surge uma Gal que entoa a guitarra de Lanny Gordin. Ainda em 68, Gal dá outra mudada… Grava o disco “Cantar” e inicia outro repertório com canções do João Donato e Carlos Lyra, uma fase em se preocupada mais com a respiração e larga a agressividade. Esse novo caminho segue com Dorival Caymmi, Chico Buarque, Gil, Suely Costa, Gonzaguinha, Milton, Caetano, Djavan.

Em 1979, ela coloca batom vermelho, calça salto alto e se enfeita de vermelho com uma flor espetada nos cabelos, vestido sensual. É transformada num mulherão. É a “Gal Tropical”, canta, com naturalidade, emitindo a voz sem esforço, segura, espontânea, sem exageros, “Samba Rasgado”, “Noites Cariocas”, “Juventude Transviada” “Estrada do Sol” e, maliciosamente dançante, a velha marchinha de Braguinha, do Carnaval de 36, “Balancê”.

Em seguida, canta Ary Barroso (“Tu”, “Folha Morta”, “Inquietação” e “Jogada pelo Mundo”). Gravao disco “Fantasia”. A cada fraquejada de um hit nas rádios, outro se sucede com igual ímpeto. “Meu bem, Meu mal”, “Açaí”, “Massa Real” e o top, “Festa do Interior”, de dois mestres, Morais Moreira e Abel Silva. Em “O Amor”, Gal explode num agudo com a perícia de uma lancetada de bisturi dada por exímio cirurgião. Paralelamente, toma parte num disco de outra gravadora, com João Gilberto, decorrência do comentado especial na TV Tupi ao lado de Caetano.

Já em 1982, grava o penúltimo disco na Polygram. O título resume sua carreira: “Minha Voz”. Amadurecida o suficiente para não se tornar uma clone dela mesma, Gal Costa “fecha a tampa” dos 16 anos na gravadora com duas interpretações definitivas no disco “Baby Gal”, “Mil Perdões” e “Eternamente”. O timbre doce se mantém na região grave e, na aguda, cresce emocionadamente, aliando à técnica próxima da perfeição uma afinação fisicamente irretocável.

Pois bem, tudo isso para dizer que Gal Costa tem relançada sua obra gravada nos 16 anos de contrato com a gravadora Philips/Phonogram/Polygram, reunida pela Universal. E posso dizer que ficou belo, divino maravilhoso.  

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