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Uma família simpática. Apenas isso

Rui Daher / Do Terra Magazine

Tarde fria de janeiro em Washington, DC. O casal Obama conversa numa das salas íntimas de sua residência na Casa Branca.

– Barack, o que você acha de fazermos uma pequena viagem? As meninas andam meio enjoadas por aqui.
– Agora não dá, Michelle. A tragédia de Tucson, no Arizona, está muito recente.
– Não precisa ser agora. Pode ser mais pra frente. Só a excitação de começar os preparativos já animaria a Casa. Tem algum lugar que você precisa visitar?
– Dos lugares que preciso visitar quero distância, mas um lugar que sonho conhecer é o Brasil. Na verdade, o Rio de Janeiro.
– Interessante, gostei, e aquele barbudo até que é simpático.
– Ele já não é mais o Presidente, Michelle. Agora, é uma mulher.
– Melhor ainda. Posso levar mamãe?
– Claro. Convida também a madrinha das meninas.
Sábado, 19 de março de 2011, 7,31 h. O Air Force One pousa em Brasília trazendo Barack Obama e família. Grande expectativa. Pelo menos, era o que retratava a mídia que em poucas horas passara da “catástrofe nuclear” de Fukushima, no Japão, para as “concessões comerciais” de Obama, no Brasil, e ao “ato heróico”, na Líbia, das forças de coalizão. Defender civis bombardeando outros civis.
A coluna não sabe se a insistência de Obama em conhecer o Corcovado, no Rio, incluía alguma promessa. Destravar o comércio de produtos agrícolas entre “essas duas nações amigas unidas pelas suas raízes africanas”, teria sido uma boa.
Sim, porque apesar das críticas à condução de nossa política externa recente, tivéssemos esperado a boa vontade dos EUA nos acordos multilaterais ou bilaterais, estaríamos, pesadamente, sentados no lado errado de nossa balança comercial.
Ou ainda há quem acredite que sem o glamour que dirigimos aos bons ventos asiáticos, latino-americanos e africanos as exportações do agronegócio estariam no nível em que estão?
Nada de concreto que beneficiasse nossas economia e agropecuária poderia deslanchar com a viagem de Obama. Nem mesmo em seu país ele tem conseguido muito, manietado por uma crise econômica ainda não debelada e por um Congresso que cruza interesses na mesma proporção em que imigrantes latinos tentam cruzar a fronteira.
Conselho de Segurança da ONU? Sem uma reforma total da organização? Retirar ou diminuir as barreiras às nossas exportações, e prejudicar a atividade rural, um dos motores da recuperação norte-americana?
Nossas exportações de açúcar continuarão limitadas a 153 mil toneladas. Qualquer coisa acima disso será taxada com mais US$ 338,70 por tonelada.
Nosso etanol de cana-de-açúcar continuará sobretaxado para chegar aos EUA a 16 centavos de dólar acima do mercado interno. No suco de laranja, tome mais US$ 416 por tonelada. Carnes suína e bovina? Só se vierem de Santa Catarina.
A visita de Barack Obama, invertendo o fato histórico de o nosso presidente, assim que eleito, viajar para o beija-mão, tem a ver apenas com os interesses norte-americanos no Brasil.
Depois da tentativa frustrada com a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), os EUA procuram mercado para sua indústria, hoje, trabalhando a baixa capacidade e que mal compete com a China e seu desvalorizado Yuan.
Arrisca também um olho no petróleo de pré-sal.
A despeito de hoje terem um presidente de ideias mais liberais, simpático e identificado com as causas que geram desigualdade, as instituições norte-americanas nunca deixaram de escrever a história alheia pelas suas forças políticas, econômicas ou militares.
Fossem justas e boas suas intenções, os contenciosos que ganhamos na OMC (Organização Mundial do Comércio) já teriam sido cumpridos.

Rui Daher é administrador de empresas, consultor da Biocampo Desenvolvimento Agrícola.

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