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Estou agora no aeroporto de Teresina, Piauí. São 12 horas e só tem vôo prá Natal às 16h. Faço uma conexão em Brasília e na ida prá capital potiguar o avião ainda pára no Recife para subir mais pessoas. Pois bem, aqui está um calor da “bexiga”… Não tenho muito que fazer, a não ser ir para um barzinho, aqui perto, tomar alguma coisa… Fui. Do miolo do meu juízo não saia outra coisa a não ser uma bicada de “Cajuína”. Fui num barzinho e pedi uma lapada… desceu bem. Quis tomar outra, mas lembrei que tenho duas trocas de avião, ainda esta tarde… e ponderei que não daria certo beber uns goles a mais… De repente, erro o avião como já me ocorreu outro dia…e aí a vaca ia pro brejo. Pois bem, não tomei; mas comprei uma garrafa pra beber em casa… num domingo tranqüilo; perto de uma lata de querosene (só serve a do jacaré) que “é prá mode”, se eu me embebedar, alguém passar nos meus pés…   Aí tomo umas escutando o Caetano cantando a bela “Cajúina”. E por falar em Caetano Veloso, reproduzo o texto de sua autoria onde ele relata como nasceu a bela “Cajuína”. Em tempo: a bebida não contém álcool… é um refrigerante a base de cajú.

Com  a palavra, Caetano Veloso:

“Numa excursão pelo Brasil com o show Muito, creio, no final dos anos 70, recebi, no hotel, em Teresina, a visita de Dr. Eli, o pai de Torquato [Neto]. Eu já o conhecia pois ele tinha vindo ao Rio umas duas vezes. Mas era a primeira vez que eu o via depois do suicídio de Torquato. Torquato estava, de certa forma, afastado das pessoas todas. Mas eu não o via desde minha chegada de Londres: Dedé e eu morávamos na Bahia e ele, no Rio (com temporadas em Teresina, onde descansava das internações a que se submeteu por instabilidade mental agravada, ao que se diz, pelo álcool). Eu não o vira em Londres: ele estivera na Europa, mas voltara ao Brasil justo antes de minha chegada a Londres. Assim, estávamos de fato bastante afastados, embora sem ressentimentos ou hostilidades. Eu queria muito bem a ele. Discordava da atitude agressiva que ele adotou contra o Cinema Novo na coluna que escrevia, mas nunca cheguei sequer a dizer-lhe isso. No dia em que ele se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais frequentemente com Chico do que comigo. Chico e eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal. Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental. Quando, anos depois, encontrei Dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Estão ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quas e nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquaro distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.

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