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 Do Terra Magazine

 Portugal vai, aos poucos, redescobrindo o Brasil. Futebol, novelas de televisão, cantos, danças, crenças populares e, mais recentemente, também nossos pensadores. Semana passada a Universidade Lusófona, em Lisboa, promoveu seminário (“colóquio”, como eles chamam) para apresentar, a estudantes e pesquisadores portugueses de ciências sociais, o pensamento de Gilberto Freyre, com o tema “Identidades, hibridismos e tropicalismos: leituras pós-coloniais de Gilberto Freyre”. Cada participante apresentou ao público, um dos livros do mestre – Casa-grande e senzala, Nordeste, Ordem e progresso, Sociologia: introdução ao estudo dos seus princípios, Como e porque sou e não sou sociólogo, Sociologia da medicina, Ingleses no Brasil, Alhos e bugalhos:ensaios sobre temas contraditórios, Arte, ciência e trópico, Modos de homem e modas de mulher, textos sobre futebol, O mundo que o português criou, uma cultura ameaçada: a luso brasileira, Aventura e rotina, Uma cultura moderna: a luso tropical, Um brasileiro em terras portuguesas, O luso e o trópico. E também  Açúcar – que coube a mim, com muita honra, apresentar.

Só para lembrar esse açúcar foi o mais importante de todos os elementos trazidos ao Brasil pelo português, influenciando nossa economia e nossa formação social. Moldou também nosso jeito de ser e nossa alma. “Sem açúcar não se compreende o homem do Nordeste”, reconheceu desde cedo Gilberto Freyre. Ao sol ardente de campos cheios de cana e nos engenhos primitivos (ainda movidos por animais), logo seriamos o maior produtor de açúcar do mundo. Enquanto isso nas casas-grandes, em um ambiente de cheiros fortes e fumaças muitas, ia nascendo aos poucos a doçaria pernambucana – “debaixo dos cajueiros, à sombra dos coqueiros, com o canavial sempre do lado a fornecer açúcar em abundância”. Com sabores, temperos, superstições e hábitos das três raças que nos formaram. Tudo na medida certa. E tudo com aquele equilíbrio “que Nabuco sentia no próprio ar de Pernambuco”. Convivência espontânea entre o cristal de açúcar, o sabor selvagem da fruta tropical, e aquele que era o alimento básico de nossos índios – a “manióka” (mandioca). Juntando pilão, urupema, saudade, peneira de taquara, raspador de coco, esperança, colher de pau, panela de barro, mais “a fartura de porcelana do oriente e bules e vasos de prata”.

Em “Açúcar” Gilberto Freyre catalogou, cuidadosamente, compotas e sorvetes que foram nascendo com o gosto forte de nossas frutas. A epifania gloriosa de doces e bolos com sabor de pecado – beijos, suspiros, ciúmes, baba-de-moça, arrufos-de-sinhá, bolo dos namorados, colchão de noiva, engorda-marido, fatias-de-parida – que o povo logo chamou de “fatias paridas”. Criados por freiras – manjar-do-céu, bolo divino, papos-de-anjo. Para lembrar fatos históricos – Treze de Maio, Cabano, Legalista, Republicano. Com nome das famílias que os criaram – Cavalcanti, Souza Leão. Dos engenhos onde nasceram – Noruega, Guararapes, São Bartolomeu. E nome de gente, também – Dona Dondon, Dr. Constâncio, Dr. Gerôncio, Luiz Felipe, Tia Sinhá. Mais os sabores das festas – Carnaval, Semana Santa, São João, Natal. Tantos mais. “Com as comidas indígenas e negras iam circulando as amostras da doçaria portuguesa” (Câmara Cascudo – “A Cozinha Africana no Brasil”). Inclusive doces de rua, de tabuleiro, bombons, confeitos. Mais tudo que estava à volta, como o papel recortado usado na decoração desses bolos e doces. Sem esquecer os usos especiais daquele açúcar, inclusive na preparação de remédio, em xaropes e chás: de flor de melancia (para dor nos rins), de mastruço (gripe), de capim santo (fígado), de cidreira (tosse), de casca de catuaba (impotência). Tudo reunido com critério e paixão.

“Açúcar” chega, enfim, a Portugal. Na hora certa. Cumprindo por justiça reconhecer que escrever o livro naquele tempo foi, como ele mesmo reconheceu, um “ato de coragem”. Escandalizou conservadores, ao recolher receitas que vieram de famílias e engenhos da região. Espantou a “academia”, ao se ocupar de tema considerado então menor. Enfrentou previsíveis comentários, de maldade ou inveja. Mas não se incomodava com as críticas. Porque havia, nele, a clara antevisão dos predestinados. Porque sentia ser preciso contar esse pedaço de nossa história. Porque pressentia a importância que teria “Açúcar”, no futuro que viria. E é graças à ousadia, à persistência, e ao gênio de Gilberto Freyre que hoje podemos compreender melhor, em sua grandeza, a alma generosa de um povo. O povo nordestino.

RECEITA: PAPOS-DE-ANJO EM CALDA DE ANIS

INGREDIENTES:

6 gemas 
1 ovo inteiro
350 g de açúcar
400 ml de água
2 estrelas de anis (para quem gosta)

PREPARO:

* Faça uma calda rala com a água, o açúcar e o anis estrelado (se quiser). Reserve. 
* Em uma batedeira bata bem as gemas e o ovo inteiro, por trinta minutos. Coloque esse creme de gemas em pequenas formas untadas, e depois em tabuleiro com água para que os papos de anjo assem em banho-maria. Desenforme e deixe esfriar.
 
* Coloque os papos de anjo em compoteira e sobre eles, ponha a calda.

 Lecticia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multicultural e no site pe.360graus.

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