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Para dentro do Brasil – (Da Carta Capital)

“Eu vou ao Sul do Brasil e me sinto num lugar relativamente estrangeiro. Vou a Salvador, me sinto num lugar bastante estrangeiro. Porque no Sul do Brasil parece que fui pra Europa; na Bahia, parece que fui pra África. Mas quando eu vou pra Minas eu sinto que eu fui pra dentro do Brasil”.

‘Como o ventilador, tudo no filme parece simbólico: a estrada, o pó, os canaviais, o retrovisor, o cansaço, o calor’

A frase, atribuída à atriz Fernanda Montenegro, é citada por Caetano Veloso em uma entrevista sobre a música “A Terceira Margem do Rio”, composta em parceira com o mineiro Milton Nascimento e baseada no conto de mesmo nome do também mineiro João Guimarães Rosa.

Pois é para dentro do Brasil que envereda a trupe de “O Palhaço”, filme dirigido e protagonizado por Selton Mello. No longa, o ator-diretor – que nasceu em Passos (em Minas) e cresceu e se notabilizou em São Paulo – interpreta Benjamin, palhaço que, a certa altura da vida (e da excursão) sente que é hora de parar, tomar outro caminho, respirar. Não por acaso, há uma fixação que acompanha o personagem ao longo do filme: a falta que lhe faz o ventilador.

Como o ventilador, tudo no filme parece simbólico: a estrada, o pó, os canaviais que margeiam o caminho, o cansaço, o calor, a ausência de identidade, a cachaça, as cores, a tenda, a música encomendada, as pequenas transgressões, a frágil ideia do coletivo, a divisão de tarefas, a dança da mulher-coragem, a atriz-mirim, o terreno onde se ergue o palco, o nome do circo (Esperança), a vida nômade de seus personagens…tudo tão Brasil.

O palhaço Benjamin, personagem de Senton Mello no filme que ele mesmo dirige

A referência à terra natal do ator (Passos, a cidade a ser atingida) parece lançá-lo a um ponto distante, de descanso; longe da turbulência dos palcos que o consagraram. De Lourenço, o cínico personagem de Selton Mello em “O Cheiro do Ralo” – épico sobre a relação homem-lobo-do-homem baseado na obra de Lourenço Mutarelli – Benjamin não tem nada. Sua angústia parece vir dos mais infantis dos questionamentos. O que faço aqui? Para onde vou? Estou dando conta?

São as perguntas que parecem emergir quando, ao lado de uma prostituta de estrada, ele diz, angustiado: “Sou eu que faço rir, mas quem é que vai me fazer rir?”. A resposta da mulher, interpretada por Fabiana Karla, é uma risada. E um cruel: “Você é tão engraçado…”

A trupe do Circo Esperança

Benjamin faz rir sem querer. Fora dos palcos, como um personagem de “Primeiras Estórias”, ele “muito não se demonstra”. É o tímido bobo, ingênuo como aquele tio do interior que não casou nem liga para dinheiro; não vê a maldade que o cerca, doa a própria calça para não ver o amigo passar frio, e é capaz de passar horas contemplando o mundo, a chuva, a lua, os animais – e que fatalmente seria engolido na cidade grande. Benjamin é parte de um povo que, nas palavras de Milton Nascimento, “têm uma cabeça, um coração, uma emoção, uma coisa que em lugar nenhum do mundo se encontra”. “Por isso eu gosto do interior”, conclui o compositor, na entrevista sobre “A Terceira Margem”.

No filme, ao reconstruir o mito do palhaço, que em geral aponta fraturas por meio do riso ou da fingida loucura, Selton inverte o clichê; desta vez é o palhaço que precisa rir, respirar, encontrar caminhos, uma identidade.

Ao abandonar o circo, Benjamin tenta seguir com os próprios passos. Em vão

Pois é numa cidadezinha em Minas que Benjamim, enfim, troca seu combalido comprovante de nascimento por um registro civil, para oficialmente existir. Justo ali, no estado onde está sacramentada a identidade de parte do que a cultura brasileira já produziu de melhor – Rosa na prosa, Drummond na poesia, Sabino na crônica (Se sou mineiro? Bem, é conforme, dona…Sou de Belzonte, uai”), Milton na música, entre tantos de tantos.

Como seus pares, e com a ajuda de uma atuação eloquente de Paulo José (Valdemar, dono do circo e par de Benjamin, seu filho, nos palcos), Selton Mello se rende, em “O Palhaço”, à cultura popular; ao jeito de falar, sobreviver e de fazer rir dos brasileiros mais brasileiros. Esta é a sua terra, sua tradição, e sua escola.

Minas e o cinema não poderiam estar mais bem representados.

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