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O rio  nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. (Mia Couto. A Chuva Pasmada).

Já era pra ter plantado aqui o que entrou no meu juízo depois da leitura de dois livros do grande Mia Couto. Nem carece falar muito dele, pois já falei desse moçambicano umas poucas de vezes aqui no roçado. Mas é que tem um deles, “A Chuva Pasmada”, que li de forma muito aperreada e engraçada. Quase todos os dias eu ia à livraria Cortez, aqui pertinho, mais ou menos umas 100 braças aqui de casa, ler o danado do livro. Viciou-me, visse!!. A leitura + o café expresso.

Em Chuva Pasmada quem narra o romance é um menininho que entrecruza com os diálogos entre os personagens. São 17 capítulos onde um avô e um menino protagonizam a história. E ainda, o pai, a mãe e uma tia solteira. Os pais consideram o ‘meninin’ uma criança espantada, pasmada: lerdo no fazer e custoso (demorado) no pensar. E aí uma ‘comparaçãozinha’ arretada: a chuva que tardava a vir e era reclamada por todo mundo, era tão ‘pasmadinha’, lerda, como o menino.

Mas por qual razão a chuva não caia naquele pedaço africano? Por que o rio estava ficando seco? Não seria por conta da fabrica que soltava fumaça? Essas questões não podiam ser respondidas dentro de um raciocínio lógico, por isso será necessário recorrer às lendas e aos mitos. É no momento que ocorre ao avô contar a história sobre o rio (a lenda de Ntoweni). Esta lenda discorre acerca do nascimento do rio que banha aquela terra… Aí o menino inicia as observações sobre o avô. O avô é ‘mermin’ o rio: “o rio emagrecera mais do que o avô, os terrenos encarquilharam, o milho amarelecia” (p.14).

Por fim, na última parte, o avô pega um barquinho e sai deslizando na água que ainda resta do rio. O menino vê o barquinho se desmanchando no horizonte, diluindo-se no azul da correnteza e dentro dele está o avô que parte para não mais voltar.

Já o outro, “Mar Me Quer”, foi um presente que ganhei de uma amiga. Esse li com mais tempo… Claro, quando dava… Ora no banheiro, ora dentro do carro, ora na rede… Pra onde ia levava o “mar me quer” comigo. E por isso não me demorei muito na leitura.

Do que ficou no meu juízo das leituras dos livros é que somos filhos da água e só nos tornaremos terra, poeira, pó, quando secarmos, feito um torrão tal qual um açude esturricado cravado no sertão. Resta-nos não nos acabar de sequidão, de deixarmos minguar, antes que o “fio do tempo nos dite a morte”.

São estórias paridas do misto de calor e frio, do pouco definido, das estranhezas, bem fincadas no lugar e nas personagens friccionadas, como são todos os escritos do moçambicano.

Fico por aqui… e noto que há traços do Guimarães Rosa na obra do Mia Couto, por isso a leitura é interessantíssima….. Podem conferir!

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