Prisão de Battisti era ilegal, STF deu ponto final – Dalari

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 Entrevista com Dalmo Dalari

Do Terra Magazine

Preso desde 2007 no Brasil, o ex-ativista Cesare Battisti deve ser libertado imediatamente, afirma o jurista Dalmo Dallari. Nesta quarta-feira (8), o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela soltura do italiano.

A maioria dos ministros do STF já votou a favor do pedido de liberdade feito pela defesa do italiano. Este será o ponto final de anos de desencontros entre o Executivo brasileiro, o governo italiano e o posicionamento de ministros como o relator Gilmar Mendes, contrário à soltura.

A Corte já havia decidido por validar o ato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pela não extradição do italiano. Mais cedo nesta quarta, os ministros rejeitaram, sem analisar o mérito, ação do governo da Itália contra a decisão de Lula.

No último dia de seu mandato, fundamentado num parecer da AGU (Advocacia Geral da União), o ex-presidente Lula decidiu não extraditar o ex-ativista Cesare Battisti, considerado terrorista pelo governo italiano. Ex-membro do Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), Battisti foi condenado à prisão perpétua por quatro assassinatos ocorridos na década de 1970. Depois de exilar-se na França por mais de 10 anos, ele fugiu para o Brasil assim que o governo francês decidiu pela extradição para a Itália, em 2004.

Em 2009, o então ministro da Justiça, Tarso Genro (PT-RS), havia concedido asilo ao ex-ativista, mas o Supremo decidiu por mantê-lo em reclusão.

Leia a entrevista

Terra Magazine – O que representa essa decisão, a validação do ato de Lula?
Dalmo Dallari – Vai ser determinada a imediata soltura de Battisti. Hoje não estava em discussão a validade da decisão do presidente Lula. Estava em discussão a soltura e foi decidida a imediata soltura.

É um ponto final?
É um ponto final no caso. A questão da extradição já estava decidida. Só estava em decisão mantê-lo ou não preso e não havia nenhum fundamento em mantê-lo preso. Isso foi um artifício que se criou para retardar a soltura.

Não é estranho que o próprio Supremo – que havia decidido por mantê-lo preso – agora determine a soltura?
Isso foi pura manobra. Absolutamente ilegal.

Por quê?
Os perdedores incluíam o próprio presidente da Suprema Corte, Cezar Peluso, e o relator do processo, Gilmar Mendes. Eles é que deveriam ter tomado a iniciativa de determinar a soltura. Como eles foram derrotados na questão da validade do voto do ex-presidente Lula, buscaram de alguma forma retardar a libertação. Um ato de vingança.

Os próprios ministros, como Luiz Fux, por exemplo, falaram que o julgamento se tratava de defender a soberania nacional. O senhor concorda?
Não, não tem nada a ver. É claro que a questão da soberania era importante, mas, mais importante era o respeito à Constituição brasileira, como vários ministros ressaltaram.

Vou danado prá Catende

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Do Papagaio do Futuro/ Alceu Valença


“Ainda na série das preciosidades, apresentamos o musical “Vou Danado pra Catende”, gravado ao vivo para o Fantástico, em 1975, com a mesma formação que participou do Festival Abertura, na TV Globo, naquele mesmo ano. Diante do impacto da apresentação, o júri se viu forçado a premiar aqueles então desconhecidos cabeludos pernambucanos e, sem saber exatamente como defini-los, criou na hora o prêmio Pesquisa para contemplar Alceu e sua trupe. Paulo Rafael, Ivinho, Israel Semente e Agrício integravam o grupo Ave Sangria, legendários da contracultura do Recife. Lula Côrtes, Zé Ramalho e Zé da Flauta haviam acabado de gravar o disco “Paebiru”, pedra fundamental do experientalismo lisérgico no nordeste dos anos 70. 

Tempos em que o sol era vermelho como um tição e se debruçava voraz sobre a casa das caiporas”

Alceu Valença defende Chico César contra o Forró, “veio”, de plástico

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Do Movimento Cultura Brasil

O Forró Vivo!

“Vejo com muito bons olhos – olhos atentos de quem há décadas observa os movimentos da cultura em nosso país – a iniciativa do Secretário de Cultura do Estado da Paraíba, Chico César, de “investir conceitualmente nos festejos juninos”, segundo comunicado oficial divulgado esta semana. Além de brilhante cantor e compositor, Chico tem se mostrado um grande amigo da arte também como um dos maiores gestores da cultura desse país.

A maneira mais fácil de dominar um povo – e a mais sórdida também – é despi-lo de sua cultura natural, daquilo que o identifica enquanto um grupamento social homogêneo, com linguagens e referências próprias. Festas como o São João e o carnaval, que no Brasil adquiriram status extraordinariamente significativo, tem sido vilipendiadas com a adesão de pretensos agentes culturais alienígenas mancomunados com políticas públicas mercantilistas sem o menor compromisso com a identidade de nosso povo, de nossas festas, e por que não, de nossas melhores tradições, no sentido mais progressista da palavra.

Sempre digo que precisamos valorizar os conceitos, para que a arte não se dilua em enganosas jogadas de marketing. No que se refere ao papel de uma secretaria ou qualquer órgão público, entendo que seu objetivo primordial seja o de fomentar, preservar e difundir a cultura de seu estado, muito mais do que simplesmente promover eventos de entretenimento fácil com recursos públicos. É preciso compreender esta diferença quando se fala de gestão de cultura em nosso país.

Defendo democraticamente qualquer manifestação artística, mas entendo que o calendário anual seja largo o suficiente para comportar shows de todos os estilos, nacionais ou internacionais. Por isso apóio a iniciativa de Chico em evitar que interesses mercadológicos enfiem pelo gargalo atrações que nada tem a ver com os elementos que fizeram das festas juninas uma das celebrações brasileiras mais reconhecidas em todo o mundo.

Lembro-me que da última vez que encontrei o mestre Luiz Gonzaga, num leito de hospital, este me pedia aos prantos: “não deixe meu forrozinho morrer”. Graças a exemplos como o de Chico César, o velho Lua pode descansar mais tranquilo. O forró de sua linhagem há de permanecer vivo e fortalecido sempre que houver uma fogueira queimando em homenagem a São João

Usar palavra em inglês é coisa de papagaio, diz deputado

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Ana Cláudia Barros

Do Terra Magazine

Imagine a seguinte cena: em um escritório qualquer, numa sexta-feira qualquer, colegas de empresa planejam uma “hora feliz” depois do trabalho. O convite é propagado pelo correio eletrônico, enviado após um clique no rato.

A situação é obviamente caricata, mas para o deputado estadual Raul Carrion (PCdoB-RS) não soaria tão estranha assim. Contrário à inclusão de estrangeirismos na Língua portuguesa, ele é autor da lei que veta a utilização, nos meios de comunicação, propagandas e em documentos no Rio Grande do Sul, de palavras em outros idiomas, sem que elas sejam acompanhadas de tradução.

Mesmo as mais corriqueiras teriam que seguir a regra estabelecida pela lei aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado e que agora aguarda sanção do governador Tasso Genro (PT).

A norma lembra a proposta do deputado federal Aldo Rebelo, também do PCdoB, que, atualmente, tramita no Senado.

Alvo de críticas e, até mesmo, de deboche, a nova lei vem provocando discussão. Para seu autor, uma das finalidades é “assegurar o direito do consumidor de ser informado em sua língua pátria”. Mais

O mundo fantástico de Jim Kazanjian

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O cara que fez essas fotos não é um fotógrafo… daqueles que a gente conhece: maquina na mão, flash.. ou daqueles (as) que com uma digital se põe a apertar o botão a torto e a direito em tudo que ver pela frente. O autor da arte é o Jim Kazanjian, norte americano, inventor dessas imagens surrealistas refinadas no juízo da criação combinada com imaginação e muita tecnologia. A ferramenta do artista é simplesmente um software, o Photoshop, que ele utiliza para criar as invencionices caóticas que dão sentido a imagem.

Só louco

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Do Terra Magazine

                     

Só louco / Amou como eu amei / Só louco / Quis o bem que eu quis
Oh, insensato coração / Por que me fizeste sofrer? /
Porque de amor para entender / É preciso amar / Porque / Só louco…
Dorival Caymmi

*****

“O que há nesta canção de Caymmi que a faz tão especial? Composta lá atrás, em 1955, como ‘samba-canção’, ganha performances marcantes com Nana, Gal e com o próprio Caymmi, e certamente anuncia o jeitão/jeitinho da bossa nova (confira no YouTube).

Constrói no coração-ouvido da gente uma certa sensação suspensiva. A gente fica suspenso junto com a música, pairando no espaço da canção, no espaço desse monólogo onde não há referência direta ao objeto amado – ‘quis o bem que eu quis’ e não ‘quis o bem que eu te quis’ como às vezes ouvimos por aí -, pairando, em suma, na turbulência estática da fricção entre o reconhecimento da loucura do amor (sua insensatez) e ao mesmo tempo de sua inevitabilidade (‘é preciso amar’). Mais

 Paulo Costa Lima é compositor. Pesquisador pelo CNPq. Professor de composição da Universidade Federal da Bahia.

Açúcar do Brasil em Portugal.

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 Do Terra Magazine

 Portugal vai, aos poucos, redescobrindo o Brasil. Futebol, novelas de televisão, cantos, danças, crenças populares e, mais recentemente, também nossos pensadores. Semana passada a Universidade Lusófona, em Lisboa, promoveu seminário (“colóquio”, como eles chamam) para apresentar, a estudantes e pesquisadores portugueses de ciências sociais, o pensamento de Gilberto Freyre, com o tema “Identidades, hibridismos e tropicalismos: leituras pós-coloniais de Gilberto Freyre”. Cada participante apresentou ao público, um dos livros do mestre – Casa-grande e senzala, Nordeste, Ordem e progresso, Sociologia: introdução ao estudo dos seus princípios, Como e porque sou e não sou sociólogo, Sociologia da medicina, Ingleses no Brasil, Alhos e bugalhos:ensaios sobre temas contraditórios, Arte, ciência e trópico, Modos de homem e modas de mulher, textos sobre futebol, O mundo que o português criou, uma cultura ameaçada: a luso brasileira, Aventura e rotina, Uma cultura moderna: a luso tropical, Um brasileiro em terras portuguesas, O luso e o trópico. E também  Açúcar – que coube a mim, com muita honra, apresentar.

Só para lembrar esse açúcar foi o mais importante de todos os elementos trazidos ao Brasil pelo português, influenciando nossa economia e nossa formação social. Moldou também nosso jeito de ser e nossa alma. “Sem açúcar não se compreende o homem do Nordeste”, reconheceu desde cedo Gilberto Freyre. Ao sol ardente de campos cheios de cana e nos engenhos primitivos (ainda movidos por animais), logo seriamos o maior produtor de açúcar do mundo. Enquanto isso nas casas-grandes, em um ambiente de cheiros fortes e fumaças muitas, ia nascendo aos poucos a doçaria pernambucana – “debaixo dos cajueiros, à sombra dos coqueiros, com o canavial sempre do lado a fornecer açúcar em abundância”. Com sabores, temperos, superstições e hábitos das três raças que nos formaram. Tudo na medida certa. E tudo com aquele equilíbrio “que Nabuco sentia no próprio ar de Pernambuco”. Convivência espontânea entre o cristal de açúcar, o sabor selvagem da fruta tropical, e aquele que era o alimento básico de nossos índios – a “manióka” (mandioca). Juntando pilão, urupema, saudade, peneira de taquara, raspador de coco, esperança, colher de pau, panela de barro, mais “a fartura de porcelana do oriente e bules e vasos de prata”.

Em “Açúcar” Gilberto Freyre catalogou, cuidadosamente, compotas e sorvetes que foram nascendo com o gosto forte de nossas frutas. A epifania gloriosa de doces e bolos com sabor de pecado – beijos, suspiros, ciúmes, baba-de-moça, arrufos-de-sinhá, bolo dos namorados, colchão de noiva, engorda-marido, fatias-de-parida – que o povo logo chamou de “fatias paridas”. Criados por freiras – manjar-do-céu, bolo divino, papos-de-anjo. Para lembrar fatos históricos – Treze de Maio, Cabano, Legalista, Republicano. Com nome das famílias que os criaram – Cavalcanti, Souza Leão. Dos engenhos onde nasceram – Noruega, Guararapes, São Bartolomeu. E nome de gente, também – Dona Dondon, Dr. Constâncio, Dr. Gerôncio, Luiz Felipe, Tia Sinhá. Mais os sabores das festas – Carnaval, Semana Santa, São João, Natal. Tantos mais. “Com as comidas indígenas e negras iam circulando as amostras da doçaria portuguesa” (Câmara Cascudo – “A Cozinha Africana no Brasil”). Inclusive doces de rua, de tabuleiro, bombons, confeitos. Mais tudo que estava à volta, como o papel recortado usado na decoração desses bolos e doces. Sem esquecer os usos especiais daquele açúcar, inclusive na preparação de remédio, em xaropes e chás: de flor de melancia (para dor nos rins), de mastruço (gripe), de capim santo (fígado), de cidreira (tosse), de casca de catuaba (impotência). Tudo reunido com critério e paixão.

“Açúcar” chega, enfim, a Portugal. Na hora certa. Cumprindo por justiça reconhecer que escrever o livro naquele tempo foi, como ele mesmo reconheceu, um “ato de coragem”. Escandalizou conservadores, ao recolher receitas que vieram de famílias e engenhos da região. Espantou a “academia”, ao se ocupar de tema considerado então menor. Enfrentou previsíveis comentários, de maldade ou inveja. Mas não se incomodava com as críticas. Porque havia, nele, a clara antevisão dos predestinados. Porque sentia ser preciso contar esse pedaço de nossa história. Porque pressentia a importância que teria “Açúcar”, no futuro que viria. E é graças à ousadia, à persistência, e ao gênio de Gilberto Freyre que hoje podemos compreender melhor, em sua grandeza, a alma generosa de um povo. O povo nordestino.

RECEITA: PAPOS-DE-ANJO EM CALDA DE ANIS

INGREDIENTES:

6 gemas 
1 ovo inteiro
350 g de açúcar
400 ml de água
2 estrelas de anis (para quem gosta)

PREPARO:

* Faça uma calda rala com a água, o açúcar e o anis estrelado (se quiser). Reserve. 
* Em uma batedeira bata bem as gemas e o ovo inteiro, por trinta minutos. Coloque esse creme de gemas em pequenas formas untadas, e depois em tabuleiro com água para que os papos de anjo assem em banho-maria. Desenforme e deixe esfriar.
 
* Coloque os papos de anjo em compoteira e sobre eles, ponha a calda.

 Lecticia Cavalcanti coordena o caderno Sabores da Folha de Pernambuco, escreve na Revista Continente Multicultural e no site pe.360graus.

De Robert Johnson prá cá, 100 anos.

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Ano passado escrevi, aqui neste sítio, sobre a cantoria nordestina e o blues de Robert Johnson (https://melnotacho.wordpress.com/2010/10/01/a-cantoria-e-o-blues/). Agora, vejo um artigo sobre Robert Johnson no Jornal Estadão e copio abaixo.

 Ele teria vendido a alma para se tornar o maior. Lenda? O fato é que Robert Johnson, um século depois, é mesmo o maior

 Gabriel Vituri – estadão.com.br

 1938. Whisky and women, apesar de rotineiros, levaram Robert Johnson à morte em 16 de agosto daquele ano. O bluesman se apresentava ao lado dos companheiros Sonny Boy Williamson I e Honeyboy Edwards quando, atraído por olhares de uma dama, foi atrás da investida que teria lhe custado a vida. O dono do salão, inconformado com o flerte entre sua mulher e o músico, tratou logo de providenciar um litro de uísque. Parceiros tentaram dissuadi-lo de aceitar a garrafa aberta, sem sucesso. Provavelmente envenenado, ele contraiu pneumonia e morreu três dias depois em um vilarejo próximo a Greenwood, no Mississippi, na região sudeste dos Estados Unidos.

Farrell/AE – O bluesman do Mississippi viveu apenas 27 anos, o suficiente para virar uma lenda

Robert Leroy Johnson completaria 100 anos no próximo dia 8 de maio. Filho de Julia Major Dodds e Noah Johnson (amante de sua mãe e com quem ele nunca conviveu), o ícone do blues nasceu em Hazlehurst, também no Mississippi. Em 27 anos de vida, foi acusado de vender a alma ao diabo e apareceu em apenas três retratos – o último, descoberto só em 2008, hoje faz parte do acervo familiar.

Para celebrar o centenário, a Sony Music lança a coleção The Complete Original Masters – Centennial Edition, com as 29 composições do artista, um DVD e 12 discos de vinil, com réplicas dos singles lançados na época. A edição de luxo será limitada inicialmente em mil unidades e vendida somente pela internet. A caixa traz um CD duplo – o único item que poderá ser comprado separadamente – com todas as 42 gravações do compositor remasterizadas (outros lançamentos traziam apenas 41 takes, sem a versão extra de Traveling Riverside Blues). O documentário The Life And Music of Robert Johnson: Can’t You Hear the Wind Howl e dois CDs com gravações de contemporâneos a Robert, como Tommy Johnson e Furry Lewis, também fazem parte do pacote completo.

As verdadeiras joias, porém, são 12 pequenos discos de vinil. Acompanhados por um livreto com informações sobre as gravações, as réplicas trazem 24 canções (lado A e B) de Robert Johnson lançadas em 1936 e 1937. Entre as faixas dos singles estão clássicos como I Believe I’ll Dust My Broom eTerraplane Blues. Esta última, uma metáfora sexual que compara a mulher a um automóvel sedã, foi considerada um sucesso para época, com cerca de cinco mil cópias vendidas. É claro, todo luxo tem seu preço. Prevista para ser entregue aos compradores de todo o mundo a partir do dia 26 de abril, a relíquia custará R$ 572,79, sem o frete – com todas as taxas e os impostos o valor passa dos R$ 1 mil.

Inspiração para Muddy Waters, Bob Dylan, Eric Clapton, Rolling Stones e um sem-fim de estrelas, Robert Johnson é considerado um dos grandes pais do blues e de sua evolução até a chegada do rock and roll. Autor de riffs diferentes entre si (When You Got a Good FriendThey’re Red Hot ou a clássica Sweet Home Chicago), com apenas um violão, preenchia o espaço das gravações com a marcação do baixo, solos de slide e a base da música, tudo isso misturado a uma voz compassada e profunda.

Dedicada a preservar a memória e os registros da lenda do Mississippi, a Fundação Robert Johnson – cujo presidente é Claud Johnson, o único filho do músico – promove este ano uma série de shows e outros eventos comemorativos pelos Estados Unidos. Steven Johnson, vice-presidente da fundação e neto de Robert Johnson, falou ao Estado por email. “Meu pai não conviveu com Johnson, não o deixavam. Blues era considerado coisa do diabo mesmo.”

 

FHC e Llosa: sob fogo cruzado

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Do terra magazine

Artigo polêmico de FHC causa mal estar entre tucanos e petistas.

Crivado de flechas impiedosamente – como o São Sebastião da música de Chico Buarque -, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso anda atônito e desolado. Sobre ele desabam saraivadas de críticas, partidas indistintamente de adversários e aliados. Entre estes (o que mais dói como dá para sentir nas reações de FHC) combatentes da primeira hora do PSDB – políticos e intelectuais de mais rica plumagem no tucanato brasileiro.

O mais espantoso: o fogo cerrado começou imediatamente depois do presidente honorário do PSDB produzir – em tempo de muita intriga e pensamento ralo e rasteiro – um dos mais brilhantes, completos e elevados textos políticos em forma e conteúdo sobre os descaminhos e equívocos das oposições no Brasil.

Aparentemente, uma única frase, que inclui a palavra “povão”, fez explodir toda a arenga: “Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os movimentos sociais ou o povão, isto é, sobre as massas carentes, e pouco informadas, falarão sozinhos”, escreveu Fernando Henrique Cardoso no ensaio “O papel da oposição”, produzido para a revista “Interesse Nacional”, que começa a circular esta semana.

Pronto, estava aceso o estopim de uma das maiores e mais ácidas polêmicas de que se tem notícia no País ultimamente. Pouca gente (petistas “e tucanos principalmente”, como se queixa o autor), pareceu interressada de verdade em seguir adiante na leitura do texto. Repita-se, escrito exemplar no estilo e conteúdo didaticamente elucidativo sobre métodos, estratégias e jeito de fazer oposição atualmente.

No Decálogo do Estadista, Ulysses Guimarães, o oráculo do antigo MDB, de cuja costela nasceu o PSDB de Fernando Henrique, ensina no sétimo mandamento: em política deve-se evitar ao máximo “proferir palavras irreparáveis”.

Se o termo irreparável for escrito e divulgado para milhões, então, tudo fica muito mais complicado e avassalador, pois obriga, algumas vezes, a uma das tarefas mais inglórias da comunicação: “o autor precisar explicar no dia seguinte o que escreveu na véspera para seus leitores”, como ensinava na redação do Jornal do Brasil e em seus livros preciosos de jornalismo, o saudoso editor nacional Juarez Bahia.

A Paciência é o sétimo mandamento do Decálogo do Estadista criado por Ulysses Guimarães. Parece ser esta a virtude que FHC precisará exercitar nos próximos dias – em lugar de tantas e tão dispensáveis explicações para alguém com sua biografia. Alem, é claro, de lamber as feridas, como o cão de São Roque ou de São Lázaro, para curar as chagas causadas principalmente pelo fogo amigo destes últimos dias.

Saber escutar é um dom político, pregava Ulysses: “A santa paciência de escutar! A misericordiosa paciência de ouvir os redescobridores da roda, os inventores da quadratura do círculo, os chatos ‘que não o deixam ficar só e não lhe fazem companhia’, como lamentava o filósofo Benedetto Croce”.

Paciência, principalmente, para lidar com “homens-moluscos”, que se moldam sofregamente à palma da mão dos poderosos da vez, aves de arribação de todas as tendências e partidos, que grassam como praga na política brasileira destes dias. A triste descoberta que FHC parece estar fazendo ao avaliar vários de seus companheiros, alguns meio trêfegos sempre, mas outros insuspeitos até aqui.

Agora, antes do ponto final, uma rápida passagem pela costa do Pacífico, por onde tem apanhado feio também nas últimas semanas o outro personagem desta crônica: Mario Vargas Llosa, doublé de fantástico escritor laureado com o mais recente Nobel de Literatura, e, ao mesmo tempo, apressado e agressivo guerrilheiro do liberalismo econômico e político na América Latina.

Derrotado como candidato na disputa presidencial que levou ao poder Alberto Fujimori e o Peru a uma das fases mais trágicas e deprimentes da historia, Vargas Llosa não teve a paciência necessária para deixar passar a mágoa pelo insucesso eleitoral. Retornou ao seu país – e isso é mais que justo e elogiável – para a campanha em curso, mesmo sem ser candidato. Veio com ganas de vingador de discursos ácido e palavras irreparáveis.

No primeiro turno, as eleições presidenciais tiveram um resultado inesperado para muita gente, mas principalmente para Vargas Llosa, considerado pela mídia, analistas e políticos aliados, como um dos maiores perdedores na etapa inicial. O Nobel votou declaradamente e fez campanha para Alejandro Toledo, o liberal ex-presidente que começou a campanha como o preferido em todas as pesquisas e acabou como quarto colocado na primeira volta eleitoral.

Vargas é flechado no Peru não por sua defesa do liberalismo, perfeitamente legítima, mas sim, apontam seus críticos, pelo fanatismo que respinga do seu discurso de palanque, o desprezo pelos adversários, e não raro pelos aliados também. “Se um mérito cabe atribuir ao liberalismo político – não ao econômico – é justamente a tolerância, virtude que Vargas Llosa parece desconhecer. Seu dogmatismo esquerdista da juventude, se transferiu para o outro extremo, sem sofrer alterações”, escreveu o crítico e ex-diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, Silvio Juan Maresca, em artigo publicado na prestigiosa revista semanal “Notícias”.

Resultado: vão disputar o segundo turno o candidato das esquerdas Ollanta Humala (mais votado no primeiro turno) e a direitista Keiko Fugimori, filha do corrupto ex-presidente do Peru. Segundo Mario Vargas Llosa, “é como escolher entre o câncer e a AIDS”.

Palavras irreparáveis do político. Que viva o escritor Vargas Llosa!

 Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site-blog Bahia em Pauta (http://bahiaempauta.com.br/).


Café…

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Um cafezinho é bom demais da conta. O sabor amargo, equilibrado com uma colherzinha de  açúcar mascavo faz o sabor chegar ao ponto. Às vezes me ocorre de tomá-lo sem açúcar.

Acho que o danado do cafezinho viciou-me.  E depois me causa eletricidade; melhora a produtividade… O sorriso fica rasgado que, na dose certinha, me consegue induzir. Tomo café, sempre ao acordar, a ler, a tocar violão, a ver televisão, escrever, estudar, a falar com amigos – numa livraria pertinho de minha casa –, a tentar decidir o que fazer; depois que saio de uma reunião… Só fico meio receoso de tomá-lo depois das 20h… pois fico um pouco elétrico e perco horas de sono… Pois bem, gosto dele forte ou fraco, expresso ou instantâneo, frio e quente, com limão, chocolate, rapadura ou acompanhado de uma bolachinha.

Cajuína

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Estou agora no aeroporto de Teresina, Piauí. São 12 horas e só tem vôo prá Natal às 16h. Faço uma conexão em Brasília e na ida prá capital potiguar o avião ainda pára no Recife para subir mais pessoas. Pois bem, aqui está um calor da “bexiga”… Não tenho muito que fazer, a não ser ir para um barzinho, aqui perto, tomar alguma coisa… Fui. Do miolo do meu juízo não saia outra coisa a não ser uma bicada de “Cajuína”. Fui num barzinho e pedi uma lapada… desceu bem. Quis tomar outra, mas lembrei que tenho duas trocas de avião, ainda esta tarde… e ponderei que não daria certo beber uns goles a mais… De repente, erro o avião como já me ocorreu outro dia…e aí a vaca ia pro brejo. Pois bem, não tomei; mas comprei uma garrafa pra beber em casa… num domingo tranqüilo; perto de uma lata de querosene (só serve a do jacaré) que “é prá mode”, se eu me embebedar, alguém passar nos meus pés…   Aí tomo umas escutando o Caetano cantando a bela “Cajúina”. E por falar em Caetano Veloso, reproduzo o texto de sua autoria onde ele relata como nasceu a bela “Cajuína”. Em tempo: a bebida não contém álcool… é um refrigerante a base de cajú.

Com  a palavra, Caetano Veloso:

“Numa excursão pelo Brasil com o show Muito, creio, no final dos anos 70, recebi, no hotel, em Teresina, a visita de Dr. Eli, o pai de Torquato [Neto]. Eu já o conhecia pois ele tinha vindo ao Rio umas duas vezes. Mas era a primeira vez que eu o via depois do suicídio de Torquato. Torquato estava, de certa forma, afastado das pessoas todas. Mas eu não o via desde minha chegada de Londres: Dedé e eu morávamos na Bahia e ele, no Rio (com temporadas em Teresina, onde descansava das internações a que se submeteu por instabilidade mental agravada, ao que se diz, pelo álcool). Eu não o vira em Londres: ele estivera na Europa, mas voltara ao Brasil justo antes de minha chegada a Londres. Assim, estávamos de fato bastante afastados, embora sem ressentimentos ou hostilidades. Eu queria muito bem a ele. Discordava da atitude agressiva que ele adotou contra o Cinema Novo na coluna que escrevia, mas nunca cheguei sequer a dizer-lhe isso. No dia em que ele se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais frequentemente com Chico do que comigo. Chico e eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal. Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental. Quando, anos depois, encontrei Dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Estão ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quas e nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquaro distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.

Tradutor de Chuvas, por Mia Couto

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O moçambicano Mia Couto, pra mim, é um dos grandes escritores… Um bom ficcionista. Não sei dizer se é um bom poeta… É que eu não tenho muitos critérios para tal julgamento. Mas estou lendo um livro de poesias dele que se chama “Tradutor de Chuvas”, com 66 poemas, e nem preciso dizer que também estou gostando até demais da conta. As poesias ‘carregam’ no lirismo… e eu acho isso fantástico. Mia Couto cria um mundo próprio… É como se fosse uma “agricultura às avessas”… onde ele com “apenas uma semente / planta a terra inteira”, ao mesmo tempo que admite só ter palavras para o “indizível”. Nisso aí ele é craque. Ele fez-se no ato de escrever e por isso faz acontecer os nascimentos reais ou simbólicos, as mães e os filhos, os partos, as casas e os rios, os infinitos e as eternidades… Na verdade, um verdadeiro labirinto de arquétipos. Os poemas que gosto do livro são os mais curtos: “a minha tristeza / não é a do lavrador sem terra. // A minha tristeza / é a do astrônomo cego”… Também tem àqueles narrativos como “O brinde” e “Os que esperam”. Tem também aqueles que materializam sutilmente a passagem do tempo: “O bairro da minha infância” e aqueles que focam com nitidez gestos concretos: “… a moça sentada num degrau, pintando as unhas como quem oculta a morte da sua meninice, corpo dobrado na “delicada intenção do ourives”. Pois bem, quem não ainda não leu sugiro dar uma olhadinha no livro do autor; vocês não vão se arrepender.

Micróbio do Samba, por Adriana Calcanhoto

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Há muito tempo que Adriana Calcanhoto tinha sido contaminada pelo “micróbio do samba”. O remédio que tomou foi pra ele ainda mais se intensificar em sua alma. Mas, somente agora é que ela resolveu tratar do caso num belo trabalho que se chama: “micróbio do samba”.

Contamine-se aqui com esse belo cd

Adjetivar

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Uma mania de jornalista é a de classificar as coisas. Mas, cá prá nós, é quase todo mundo assim (biólogos, químicos, sociólogos, psicólogos…). A poesia é mais livre dessas coisas… Mas também, vez por outra, recorre a esse artifício. Artistas também são sensíveis a essas etiquetas. Um deles é Marcelo Camelo (ex- Los Hemanos). Fiz uma busca rápida sobre o cara e vi que a vida dele também é muito adjetivada: estranho, mauricinho, difícil, e por aí vai. Quer ver outro adjetivado? Caetano Veloso, Lula da Silva… Pois é, esses caras deixam o jornalismo a flor da pele, seja por fugir dessas classificações, seja pelas suas declarações ou até mesmo pela ausência delas. Essas coisas, às vezes, direciona a atenção do público mais para o personagem que para sua obra ou esbarra no trabalho do cara com um conceito pré concebido.

Voltando ao Marcelo Camelo, tem uma composição dele, no cd “Nós ou Sou”, que, a gente reparando bem, a primeira impressão é a de um artista que pouco se importa com o que o mercado fonográfico e o publico esperam dele, assim cria sua música e isso o coloca no espaço da liberdade.

“Posso estar só
Mas, sou de todo mundo
Por eu ser só um
Ah, nem! Ah, não! Ah, nem dá!
Solidão, foge que eu te encontro
Que eu já tenho asa
Isso lá é bom, doce solidão?”

Doce solidão, Marcelo Camelo

Pois bem, o cd do ex-Los Hermanos, não tem jeito; é introspectivo e, ao mesmo tempo, alegre. Quando escutei pela primeira vez até achei que fosse um trabalho de uma música só… porém, aos poucos você percebe que as canções vão te levando à sensações diferentes.

.Há quem diga que ele Marcelo camelo “não faz canções, mas exorciza sentimentos”. Concordo com a idéia.

Deixem tudo que escutou ou leu acerca do cara e escutem a canção abaixo.

Elizabeth Taylor

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ELIZABETH TAYLOR (1932-2011)

A atriz anglo-americana Elizabeth Taylor morreu hoje, aos 79 anos, em Los Angeles. A lendária atriz, que protagonizou “Gata em Telhado de Zinco Quente”, “Cleópatra”, “Butterfield8” e “Quem tem medo de Virginia Woolf?”, também ficou imortalizada nesta obra de Andy Warhol.

“(…)Elizabeth Taylor é, em minha opinião, a maior atriz da história do cinema. Ela entende intuitivamente a câmera e suas intimidades não verbais. Abrindo os olhos violeta, conduz-nos ao reino líquido da emoção, que habita por intuição pisciana. Richard Burton disse que ela o ensinou a atuar para a câmera. Economia e contenção são essenciais. Em sua melhor forma, Elizabeth Taylor simplesmente é. Uma carga elétrica, erótica, faz vibrar o espaço entre o rosto dela e a lente. É um fenômeno extra-sensório, pagão.

Meryl Streep, à maneira protestante, entusiasma-se com as palavras; exibe sotaques inteligentes como uma máscara para suas deficiências mais profundas. (E não sabe dizer uma fala judia; destruiu o cáustico diálogo de Nora Ephron em A difícil arte de amar.) O trabalho de Meryl não vai longe. Tentem dublá-la para cinemas indianos: não restará nada, só aquele rosto ossudo, cavalar, movendo os lábios. Imaginem, por outro lado, atrizes menos técnicas como Heddy Lamarr, Rita Hayworth, Lana Turner: essas mulheres têm um apelo internacional e universal. Seriam belas no Egito, Grécia, e Roma antigos, na Borgonha medieval ou na Paris do século XIX. Susan Haywad fez Betsabé. Tentem imaginar Meryl Streep num épico bíblico! Ela é incapaz de fazer os grandes papéis legendários ou mitológicos. Não tem poder elemental, não tem aquela sensualidade tórrida.(…)

Elizabeth Taylor é uma criação o show business, dentro do qual ela tem vivido desde que começou como atriz infantil. Ela tem a hiper-realidade de uma visão de sonho. Meryl Streep, com seu chato decoro, é bem-vinda à sua pose de atriz esforçada e despretensiosa. Eu prefiro a velha Hollywood lixo, cafona, a qualquer hora. Elizabeth Taylor, entusiasticamente comendo, bebendo, no cio, rindo, xingando, trocando de maridos e comprando diamantes aos montes, é uma personalidade em escala grandiosa. É uma monarca numa época de tristes liberais. Como estrela, ela não tem, ao contrário de Greta Garbo, Marlene Dietrich e Katharine Hepburn, qualquer ambiguidade sexual em sua persona. Terrena e sensual, apaixonada e voluntariosa, mas terna e empática. Elizabeth Taylor é a mulher em suas muitas fases lunares, admirada por todo o mundo”.

Trecho de Rainha Pagã de Hollywood, texto de Camille Paglia, publicado na Revista Penthouse em 1992, parte da coletânea Sexo, Arte e Cultura Americana (Companhia das Letras).

Assista abaixo, curta “Puce Moment”, de Kenneth Anger, cuja incorporação foi proibida… É sobre atrizes de Hollywood em suas mansões durante o final dos anos de 1940.